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A Liga está a matar o futebol

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A Liga está a matar o futebol

Ideias

2019-02-04 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Em Portugal, o futebol é muito mais do que um fenómeno desportivo. É uma impressionante atividade económica com um extraordinário impacto político e social. É também um espelho muito fidedigno da portugalidade em muitas das suas virtudes e defeitos, incluindo os laivos centralistas que se impregnaram no ADN do país durante as décadas do salazarismo.
Em contraciclo com a realidade europeia, a Liga Portugal tem vindo a acentuar de forma muito significativa o fosso entre os três clubes mais poderosos e todas as outras equipas do panorama nacional. Para isso contribui, de modo muito significativo, a forma como a própria Liga organiza as competições, reservando para os três clubes mais poderosos um sistemático e legislado tratamento de exceção que se soma ao benefício da exclusividade do espaço mediático de que estes três clubes usufruem em todos os órgãos de comunicação social nacionais.

A Liga Portuguesa é mesmo a competição nacional mais desequilibrada de toda a Europa no que respeita aos proveitos financeiros das transmissões televisivas. Em nenhum outro país, a diferença entre o que recebem os clubes poderosos e todos os outros é tão significativa como em Portugal. Esta situação ajuda a perpetuar as diferenças entre clubes, reduz a competitividade da prova, retira valor ao espetáculo e ameaça voltar a reduzir o futebol português à insignificância no contexto europeu e mundial.
Mas há mais: por causa deste injusto modelo de transmissões televisivas, há clubes que jogam sistematicamente em dias e horários impróprios para o público nos estádios. Durante o mês de janeiro, o Sporting de Braga jogou num domingo às 20:00, numa terça-feira às 18:00, numa quarta às 19:45 e numa terça 21:15. É mesmo assim que querem incentivar a presença de público nos estádios? Qual é o critério para as diferenças que se verificam entre clubes na distribuição dos horários mais apetecíveis para o público nos estádios?

Parece que a Liga tem como objetivo transformar o futebol português num mero espetáculo televisivo alavancado pelas marcas dos três poderosos a quem quer outorgar mais poder, mais dinheiro e mais privilégio mediático. Ao fazê-lo de forma consciente, a Liga demonstra ignorar que está a desvalorizar o seu próprio produto e a comprometer o futuro da competição.
Por causa deste sistema económico-mediático centrado nos três poderosos, a conflituosidade no futebol atingiu níveis verdadeiramente tóxicos ao longo dos últimos anos. Introduziu-se o vídeo-árbitro (VAR) para reduzir o erro e acabámos por descobrir que os erros se mantêm exatamente no mesmo sentido que anteriormente: nas raras vezes em que o VAR se engana contra os três poderosos gera-se tamanha exaltação mediática que até se emitem comunicados oficiais a esclarecer a situação; nas inúmeras vezes que erra contra os outros, ignoram-se as queixas e castigam-se aqueles que ousam pôr o sistema em causa.

Não admira, portanto, que os adeptos que ainda não se afastaram deste desporto protestem todas as jornadas contra uma Liga que “está a matar o futebol”. É muito significativo que este protesto junte os apoiantes de praticamente todos os clubes enquanto a comunicação social e a própria Liga ignoram esse movimento generalizado de adeptos apenas porque não mobiliza (e põe em causa) os três poderosos beneficiários deste sistema que governa o futebol português.
Os clubes desportivos representam comunidades e geram valor económico e social para as regiões em que se inserem. Defendê-los é uma obrigação de todos e, em particular, dos eleitos que representam as populações locais. No entretanto, quem quiser ajudar a salvar o futebol português da Liga Portugal, tem uma boa opção: seguir a boa tradição europeia e apoiar os clubes locais contra a hegemonia dos poderosos.

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