Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

A longo prazo

Mitos na doença mental

Ideias

2015-03-06 às 06h00

Margarida Proença Margarida Proença

Nos últimos anos o discurso político tem-se centrado, quase exclusivamente, na assunção de que “o” problema da economia é de natureza orçamental, e foi criado pelo destempero na utilização dos dinheiros públicos que teria caracterizado a década passada, pelo que não haveria outra solução que não respeitar as condições das instituições internacionais que concederam o crédito necessário, implementando assim uma política rigorosa de austeridade.

Independentemente da discussão sobre a racionalidade dessa abordagem, é já tempo para que o debate se vá alterando no sentido de se focar numa perspetiva de médio e longo prazo. Ou a atual crise funciona como uma espécie de janela de oportunidade, que crie condições para alterar políticas públicas, até do ponto de vista inovador, para alterar comportamentos empresariais, e para incentivar uma verdadeira cultura de responsabilização e transparência, ou não terá sido suficiente para induzir um crescimento económico sustentável, evitando novos tropeços em futuras crises globais (que ocorrerão, isso é certo).

A evolução no mercado de trabalho, na União Europeia, na década de 2000 reforçou a polarização das qualificações profissionais, em grande parte devido aos progressos tecnológicos. Hoje, todos nos habituamos a usar diretamente a internet para pagar contas, para comprar viagens de avião ou estadias em hotéis, selecionando os mesmos com base numa abundante informação, livremente disponível a quem a procure; e de seguida, cada um pode fazer o check-in em sua casa, e nem precisa de imprimir o cartão de embarque, podendo usar apenas a informação do mesmo enviada para o telemóvel. No aeroporto, os leitores de códigos de barra tornam desnecessária a presença de múltiplos funcionários validando cada documento.

A procura de qualificações muito baixas terá acrescido cerca de 20% entre 2000 e 2010, enquanto a procura de muito especializadas aumentou 25% - no entanto, as ocupações exigindo qualificações médias têm vindo a diminuir.

As oportunidades de encontrar uma ocupação dependem não apenas das qualificações de cada, mas também das perceções dos potenciais empregadores sobre a relação entre qualificação e produtividade, medida pelo salário; como alguma literatura tem chamado a atenção, em contextos de expansão do sistema educativo, a menor taxa de escolaridade sofre de “estigmatização por seleção negativa”, ou seja, à partida já se espera, necessariamente, uma produtividade baixa.

No entanto, a própria definição do que é um trabalhador com baixas qualificações tem vindo a mudar, e é sensível aos contextos culturais, isto é, pode ser definido de forma diferente em países diferentes. Veja-se o caso de profissões que se vão tornando ultrapassadas, a idade, ou até mesmo a consequência da emigração, forçando a aceitar ocupações muito abaixo do nível educacional. De qualquer forma, num contexto de dominância de qualificações baixas ou médias, fará sentido a manutenção da estrutura produtiva, permitindo até a baixa da taxa de desemprego, mas não concorrerá para a alteração do quadro de especialização da economia portuguesa no sentido de um maior valor acrescentado.

Um estudo muito recente sobre o futuro do trabalho na Europa sublinha que, a longo prazo, o uso de trabalho físico poderá vir a deixar de decrescer em setores como a agricultura, a energia, a construção, que são trabalho-intensivos. Por outro lado, profissões que exijam empatia tenderão a tornar-se mais importantes, dado o envelhecimento e a maior heterogeneidade da população; mas em qualquer dos casos, exigindo mais racionalidade e mais conhecimento. Neste sentido poderá competir ao Estado a definição e implementação de políticas públicas diferentes.

O tempo das políticas sociais implementadas no pós 2ª Guerra Mundial, baseado numa abordagem Keynesiana de criação de emprego por via do investimento público, já não é o de hoje. No início da década de 50, competia ao homem trabalhar “ganhar a vida” e à mulher ficar em casa a tratar dos filhos, e as qualificações aprendidas enquanto jovem duravam para a vida, numa altura em que apenas 32% das pessoas teriam uma esperança de vida superior aos 60 anos.

Mas as coisas mudaram profundamente: as estruturas familiares, o papel das mulheres no mercado de trabalho e a consequente dificuldade de equacionar as exigências profissionais e o cuidado dos filhos, e tantas vezes também dos pais, a rapidez com que profissões se tornam obsoletas num quadro global cada vez mais competitivo, tudo isto exige um novo tipo de investimento.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.