Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

A ‘palhaçada’ das finanças

Quem fez o trabalho de casa?

Ideias

2014-04-04 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

O Secretário de Estado da Administração Pública terá chamado ao Ministério vários jornalistas para lhes anunciar os planos do governo de cortes definitivos de salários e pensões.
E isto pouco tempo depois de o líder parlamentar do PSD ter afirmado não haver mais cortes e o Primeiro-Ministro ter declarado que tudo estava em estudo e que ainda era muito cedo para tomar qualquer decisão.
Entretanto o Secretário de Estado não foi demitido, nem apresentou a demissão, tudo não passando, segundo membros do governo, de um erro e de ingenuidade do Secretário de Estado.
Mas será mesmo ingenuidade? O Dr. Leite Martins não é novato nos corredores do poder. Há dez anos que é inspector de finanças, tendo passado pelo gabinete de Durão Barroso. Poderá atribuir-se esta “fuga” a falta de coordenação do governo? É ponto assente que o governo pretende diminuir ainda mais os salários da função pública, pretextando a criação duma tabela única, como existia no tempo de Salazar com a conhecida estrutura de letras. Quanto às pensões, o governo encontrou uma solução para os cortes, indexando-as ao crescimento económico e a indicadores demográficos. Quer dizer, não havendo crescimento económico, nem aumento de população, as pensões continuarão a descer.
Tenho para mim que se trata duma montagem cujo figurante foi o Secretário de Estado. O CDS, mais cauteloso, não se envolveu através do ministério da segurança social. Mas na verdade o governo tem sido useiro e vezeiro em jogadas deste tipo. Deixa sair fugas de informação; nega essa informação, ao mesmo tempo que estuda as reacções dos sindicatos e da oposição, para finalmente definir as políticas num ambiente razoavelmente favorável. Assim se cria uma opinião pública que suporta a legitimidade do governo.
Pouco de sério tem esta gente, a não ser a determinação em destruir o Estado social, convertendo o país num Estado pobre e periférico, mas honrado, como dizem.
Nada que não esteja nos livros. Há muito tempo que a interacção entre os políticos, os cidadãos e os média tem sido estudada.
Tradicionalmente, entendia-se que o Governo elaborava as políticas, desdobrando-as de um programa e que a imprensa as formatava de modo a criar uma opinião pública à qual os cidadãos aderiam, já que, como afirmava Will Rogers “ all I know is just what I read in the newspaper”.
Actualmente verifica-se que a criação da agenda não é um processo tão linear. Os governantes podem ter uma voz mais activa, envolvendo a imprensa. Num artigo muito recente de Bryan Jones e F. Baumartner (2013, faz-se a seguinte pergunta de partida: “ Porquê é que os governantes prosseguem as políticas que querem?”. E conclui-se que os media não constituem uma variável independente, com interferência determinante na construção das políticas. Os media funcionam antes como um intermediário entre os políticos e o público, ajudando aqueles a legitimar as decisões políticas.
Enfim, não se trata de uma “palhaçada”, mas de uma operação de marketing em que o Secretário de Estado actuou como vendedor, procurando sensibilizar a imprensa para os novos produtos. Mas se é assim, e tudo indica que sim, estamos perante práticas verdadeiramente maquiavélicas. O governo tem usado de forma sistemática esta engenharia de consentimento, recorrendo permanentemente ao marketing político.
Em conclusão, desconfiem de quem vos esfola e vos promete o Céu daqui a 20 anos. Estes governantes fazem-me lembrar os missionários pregadores dos romances de Camilo Castelo Branco que anunciavam as penas do Inferno, mas que entretanto, comiam, bebiam e fornicavam.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.