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A magia da ruralidade

Bernardo Reis: um nome para a história de Braga

A magia da ruralidade

Voz aos Escritores

2024-02-23 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Rua acima, rua abaixo
coloridos e audazes
praguejam e atiçam
as raparigas solteiras
os caretos, bons rapazes!

Confesso-me uma apaixonada pela ruralidade. É o vínculo que estabeleço com o berço, os seus usos e os seus costumes.
Das variadíssimas manifestações culturais desenvolvidas de norte a sul do nosso país, merecem-me particular referência aquelas que continuam a manter-se fiéis às suas vertentes tradicionalmente ruralistas. Destaco, por isso, o Entrudo Chocalheiro e o Entrudo Lagarto no nordeste transmontano.
O que me atrai mesmo nestes usos e costumes transmontanos é a alegria e a espontaneidade dos envolvidos e a magia que provocam nos outros. Sabemos que, no passado, estes rituais estavam ligados à entrada na primavera e à necessidade de os agricultores terem boas colheitas. Por isso, a tradição dos Caretos ou das Caretas, seres mágicos que vivem nas máscaras e nos trajes exuberantes, que invadem as ruas para a expurgar dos males e purificar as almas, está tão enraizada neste canto lusitano.
Inseridos nas festividades de inverno, tão características na região transmontana, os Caretos (no Entrudo Chocalheiro) e as Caretas, no caso do Entrudo Lagarto, interrompem os longos silêncios de cada inverno, saindo secretos e imprevisíveis dos diversos recantos. No caso dos Caretos, é na euforia das cores e na alegria chocalheira que a magia acontece.
Outro dado curioso é que esta tradição parece não estar ameaçada, pois os rapazes mais novos (os facanitos) já asseguram a sua continuidade. Como são giros!
Podemos dizer que, ecologicamente falando, o reaproveitamento das roupas e dos materiais usados nas máscaras indiciam, também, a reeducação das populações para uma cultura ecológica, que contribui para a sustentabilidade do planeta.
Mergulhando na raiz profana, o verdadeiro motivo que move o Careto é apanhar raparigas para as poder chocalhar. Sempre que se vislumbra um rabo de saia, ele é impelido pelo seu vigor. Ao vestir o fato torna-se misterioso e o seu comportamento muda completamente, como se fosse possuído por uma energia poderosa!
No conceito popular, ao careto atribui-se o poder de eliminar qualquer mal da natureza e da própria comunidade.
No caso do Entrudo Lagarto, a tradição é caracterizada pelo uso de rendas brancas e lenços de mulher para os rapazes ocultarem a sua identidade. Só mais tarde apareceram as máscaras de latão com um lagarto pintado. Também aqui as chamadas caretas eram reutilizadas de rendas. Os rapazes da aldeia procuravam nas casas das suas avós as rendas para se mascararem e assim ocultarem a sua identida-de.
Para mim, o mais interessante é a parte da tradição em que se faz a leitura das deixas do burro, uma espécie de versos de “escárnio e maldizer”, pelas ruas da aldeia, que colocam a descoberto os segredos das raparigas como namoros ou outras situações afins. Destaco também o tradicional jogo do cântaro, em que os mascarados lançam o cântaro de mão em mão, tentando evitar que caia no chão e se faça em mil cacos. O jogo dura enquanto houver cântaros de barro.
Da iniciativa também faz parte a queima do Entrudo, ritual sagrado em que uma imagem gigante adornada com palha e com uma máscara é queimada, significando a punição dos pecados, a expurgação e purificação da comunidade.
O reviver destes usos e costumes pelos habitantes destas terras transmontanas representa o suporte genuíno da explosão dos sentidos, que nada tem a ver com os padrões modernos de outros carnavais importados.
Hoje, a viver numa cidade com uma população multicultural, quando me bate a saudade da magia da ruralidade, registo no papel todas as histórias escutadas ao redor da lareira onde a família, sentada nos escanos de madeira, dava voz à ceia e aos serões do tempo frio, aconchegada no calor do lume, quando a água gela nas fontes e deixa de ouvir-se a limpidez do seu canto.

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