Correio do Minho

Braga, segunda-feira

'A Maria de Lurdes e... as marias'

O mito do roubo de trabalho

Conta o Leitor

2013-07-12 às 06h00

Escritor

Félix Dias Soares


Como foram tempos difíceis, os dos anos trinta e quarenta, para os trabalhadores estavam ligados à agricultura. Era da terra que saía o sustento familiar. As crianças muito cedo conheciam o desapego da família, para serem criados e servirem em casas dos lavradores. Foram muitas as crianças a passarem por estas adversidades. Hoje vou fazer referência a uma criança desse tempo, em jeito de homenagem, de nome Maria de Lurdes da Costa.

Nascida em 1920, em Cabanelas, no seio de uma família pobre, era ainda menina quando perdeu a sua mãe. Aos seis anos partiu de casa para servir como criada na casa do Rendeiro. Nesses tempos muito difíceis, a Maria foi crescendo, trabalhando, fazendo todos os trabalhos que lhe eram ordenados, ficando cada vez mais desligada da família. E foi a morte da sua mãe, que tão cedo ditou o destino da pobre Maria. Ao longo de muitos anos passados naquela casa do Rendeiro, a Maria cresceu e estava uma moça bonita.

Talvez sob promessa de uma vida melhor, saiu do Rendeiro e foi servir para a casa dos Castros de Portuzelo. Aqui já era uma moça e a casa dos Castros era de boas referências. Estavam, então, reunidas as condições para a Maria ser feliz nesta casa.

Foi assim que a Maria viveu alguns anos, fazendo bem o seu trabalho, pois conhecia bem a rotina diária da casa. Aqui formou o seu carácter e completou a sua estrutura de mulher. Mas também foi nesta casa que viveu um amor proibido, o seu grande e único amor, apaixonando-se por alguém que não era compatível com a sua classe social. Infeliz!.. A pobre Maria partiu mais uma vez, mas agora partia para mais longe, para esquecer o seu grande amor, o que nunca conseguiu até à sua morte.

A Maria partiu com destino a Vila de Conde, para servir na casa de uma família abastada, onde havia outras criadas. Cedo cativou a consideração e estima do outro pessoal doméstico, mas também dos seus patrões, confiando-lhe as tarefas da cozinha. Aqui a Maria começou a mostrar a sua sensibilidade pelos mais necessitados, talvez pelo facto de estar numa casa rica, e ver tanta pobreza à sua volta. A Maria fez bons amigos naquela casa, pelo seu permanente sorriso, mas também pela sua generosidade, pois quando se está numa cozinha farta!..

Há sempre alguma coisa a distribuir pelos outros… Era tratada por Maria de Lurdes, para não fazer confusão com outra Maria, que era a criada de sala, esta chamava-se Maria Fernandes, era de Gilmonde, do Concelho de Barcelos. Viveram muitos anos juntas naquela casa e vieram grandes amigas. A Maria de Lurdes da Costa e a Maria Fernandes, ambas solteiras, com mais de uma dezena de anos de diferença na idade, mas respeitando-se muito e tratando-se por você. Ao longo dos anos arranjaram o seu pé-de-meia e pensaram abrir um negócio. Talvez depois de muitas hesitações, pois não é de animo leve que se abre um negócio aos quarenta e cinquenta anos, no caso da Maria Fernandes. Pois com a sua coragem e determinação, esse negócio foi aberto em Cabanelas nos anos cinquenta e prosperou mais de três décadas.

É das Marias que eu venho a falar, as que deram o nome à Venda ou Mercearia das Marias. Esta Mercearia foi um pólo de desenvolvimento em Cabanelas, trazendo o Correio que era lido em voz alta e distribuído, mas também o telefone público, muito útil à população. A mercearia das Marias era das mais conhecidas e conceituadas na região, pois vendia tudo o que era necessário nas aldeias.

Havia um grande contraste entre as Marias, no físico, mas também na generosidade. Elas eram designadas por senhora Maria Nova e Senhora Maria Velha, devido à diferença de idades. A Maria Velha é que segurava as rédeas do negócio, e mantinha o devido respeito, não tolerando qualquer discussão no interior do seu estabelecimento. Lembro o caso de dois burlões disfarçados em fiscais, mas quando viram uma pistola na mão de uma mulher saída de trás da cortina, correram mais de cem metros sem parar.

A senhora Maria Nova era uma mulher de bom carácter, que sofria com a miséria e a desgraça dos outros. Foi a que esteve sempre em segundo plano no negócio, mas era ela que fazia muitas visitas a quem estava necessitado, preparando às escondidas da sua colega alguma coisa para levar aos mais pobres. Também era ela que fazia o elo de ligação entre os clientes descontentes, pela forma áspera e austera, por vezes tratados, pela senhora Maria Fernandes. Lembro que o Padre Joaquim Alves, pároco desta freguesia, deixava mercearia paga para algumas famílias carenciadas. Era a senhora Maria Nova que tinha a tarefa de ir entregar, mas sempre que podia, acrescentava às escondidas alguma coisa ao cabaz.

Assim viveram muitos anos inseparáveis, nesta terra que a senhora Maria Fernandes adoptou como sua, falecendo já com uma idade avançada, tendo merecido a simpatia e o respeito de todos os habitantes desta terra de Cabanelas. A Maria de Lurdes viveu mais alguns anos, acentuando cada vez mais ajuda aos outros, sofrendo também com a morte da amiga. Viveu um amor não retribuído, mas que nunca esqueceu. Foi como um espinho cravado no peito, que nunca pôde retirar. O bom coração da Maria de Lurdes não resistiu a todas as adversidades da vida, sofrendo um AVC que a deixou paralisada numa cadeira de rodas e sem fala.

Fustigada pela dor na sua enfermidade durante quatro anos, esta mulher suportou o peso da sua cruz sempre com um sorriso. Talvez o fizesse em sufrágio da dor, dos que, como ela sofriam no corpo e na alma.

A Maria de Lurdes é um grande exemplo na prática da caridade, pelo seu percurso de vida, bem merece o título de Santa do nosso tempo!...
Viveu desprendida de tudo que era bens, se muito tivesse, muito teria dado…

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