Correio do Minho

Braga, quinta-feira

- +

A menina que ficou na Estação

Notícias do fisco

Conta o Leitor

2015-07-11 às 06h00

Escritor Escritor

Félix Dias Soares


Foi muito difícil a sobrevivência nas nossas aldeias, sobretudo nas do interior, no século passado, pois era da terra que saía todo o sustento familiar. As famílias eram numerosas entreajudando-se de forma quase primitiva, sobretudo nas colheitas. Havia anos, que o mau tempo tornava essas tarefas muito difíceis, aumentando a precaridade das famílias e das comunidades aldeãs.
Os filhos muito cedo conheciam o desapego do seu lar, para irem para as cidades como criados. Eram as raparigas que partiam mais cedo, abandonando a escola logo que soubessem ler e escrever, para os pais, era o suficiente para uma mulher. Foi o que aconteceu à menina que ficou na Estação. Chamava-se Maria, nascida de uma família pobre, deixou a escola aos dez anos com a terceira classe, para servir na casa de um lavrador, na sua aldeia, onde guardava gado e fazia os trabalhos domésticos que lhe eram ordenados. Dois anos depois, a Maria soube que o destino a levaria para a Régua. Foi a sua Mãe que a acompanhou ao seu destino, num dia muito triste para a pequena Maria. Fazia parte da bagagem, uma pequena mala de cartão e uma saca com um frango. Foi esta a forma encontrada pelos pobres, para agradecer as migalhas, que caiam da mesa dos ricos… A oferta de um frango.

Assim entraram no comboio em Braga, destino ao Porto. Para a pequena Maria, tudo era novo, partia para uma grande aventura, com um futuro muito incerto… Apenas com doze anos. Em Nine, teriam de mudar de comboio, para o que vinha de Viana do Castelo. Foi em Nine que a Maria ficou. Era grande a confusão instalada, devido ao grande número de pessoas. A mãe confiou-lhe a saca com o frango e pediu-lhe que entrasse, ficando para trás, sendo das últimas pessoas a entrar, mas a pequena, talvez pela sua pequena estatura, não viu a mãe no comboio e voltou a sair, quando o comboio estava quase a partir. As portas fecharam-se e o comboio partiu, deixando a pequena Maria desesperada, sem saber onde se encontrava. Os gritos da Maria, depressa alertaram o chefe da estação, dizendo que sua mãe partira no comboio. A mãe partiu, mas quando não viu a sua filha no interior, ficou desesperada, na incerteza, se a filha teria caído à linha e estivesse irremediavelmente perdida. O alerta foi dado, devido ao grande alarido, provocado pelo desespero da mãe no comboio, depressa foi informada que a sua filha se encontrava em Nine na Estação, sendo convidada a sair na Estação de Ermesinde, à espera da sua filha que chegaria noutro comboio. A pequena, Maria foi recolhida no gabinete do chefe da estação, onde foi acarinhada, prometendo-lhe que sua mãe estaria à sua espera na estação seguinte.

Em Ermesinde, depois de uma longa espera deu-se o encontro, voltando a encontrar-se mãe e filha, sendo um momento de grande felicidade para as duas. O destino levou a Maria até à Régua onde sua mãe com muita mágoa a deixou. Mas a Maria, não era feliz na Régua e meses depois, pela mão de alguém foi para S. Paio de Oleiros. A casa Burguesa encontrada, não seduziu a pequena Maria, as saudades da família e o impacto brutal, ao encontrar uma sociedade tão diferente das suas origens, não permitiu a sua adaptação, a uma nova forma de viver. Algum tempo depois, voltou à sua aldeia. Havia uma mágoa que acompanhava a Maria, era o não ter feito a quarta classe. Depois de se empregar numa confecção com quinze anos, a prioridade era fazer a quarta classe, assim aconteceu, fez o exame como adulta, ficando dotada de um documento, que nesse tempo abria algumas portas à classe trabalhadora. Mas a Maria, talvez pelo seu espírito aventureiro e alguma ambição à mistura, resolveu partir mais uma vez. O destino foi Aveiro, mas agora já tinha alguma experiência e o seu carácter formado, apesar dos seus quinze anos. Dois anos depois, a pequena Maria voltava à sua aldeia, às suas humildes origens minhotas, mas na sua bagagem, trazia a experiência de vida, sabia que os ricos não eram os mais felizes.
A Maria, não teve a infelicidade de algumas criadas, a quem chamavam sopeiras, pelos seus uniformes de serventias aos seus senhores, onde eram consideradas como seres inferiores. Muitas partiram e jamais voltaram à sua aldeia, foi o triste destino de duas irmãs gémeas de uma aldeia do Minho, que também partiram, mas algum tempo depois, entraram nos corredores da prostituição e jamais voltaram à sua terra, morrendo de doença ligada à profissão mais antiga do mundo. Muitas sofreram toda a espécie de assédios, da parte dos filhos dos patrões a quem chamavam meninos, os mesmos, que os pais punham a salvo no estrangeiro, como estudantes ou refugiados, para fugirem à Guerra do Ultramar. Esses são os mesmos, que hoje desvalorizam a Guerra Colonial e os ex-combatentes, tudo fazendo para os silenciar. Mas isso!.. Fará parte de outra história.

Voltando à Maria, bem merece esta homenagem, pela sua coragem e percurso tradicional de vida, mas também pelo seu empenho na vida associativa e voluntariado.
O seu trato fácil e sorriso ameno são a prova, do seu carácter afetuoso, próprio de uma Avó feliz…

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

29 Agosto 2019

Dor

28 Agosto 2019

As batatas fritas

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.