Correio do Minho

Braga,

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A menina sem palavras

A Sueca

Conta o Leitor

2019-08-12 às 06h00

Escritor Escritor

António José de Oliveira e Cunha

Vivia no seu paraíso cheio de surpresas. O seu olhar profundo procurava o segredo do grande jardim, cujas flores eram companheiras de brincadeira.
Os perfumes eram tantos mistérios que enchiam os sonhos da menina de encantos, porque o brilho da Vida era maior do que a tristeza.
Mas os seus lábios inocentes permaneciam fechados às palavras, o que deixava ela frustrada, em pânico e com raiva.
A menina era autista. O transtorno era partilhado no dia-a-dia, enchia o lar de alegria, de amor e de tristeza, que era confortada pela mãe e pelas irmãs.

A menina costumava passar férias na casa dos avós, numa pequena aldeia minhota, e quando chegava depois duma longa viagem, sentia-se perdida e desorientada numa grande casa de pedra, no meio do nada, com muitas árvores em volta.
Tinha que reabrir o baú da memória, procurar os recantos memorizados nas últimas férias: o lugar onde a luz do sol respinga no chão, atravessando as folhas da ramada, o chilrear dos passarinhos, os gatos dos avós, e mesmo o balir das ovelhas. Aí ela se acalmava e se entranhava na sua brincadeira contemplativa, vendo a beleza de flores, ramos e pedras que nos passam despercebidos, ouvindo as histórias secretas dos abelhões e dos saltitões, e rindo muito da sua sabedoria.

Quando saía à rua, era outra história: o ruído da vila, os carros, as pessoas, tudo deixava ela aflita. A menina tinha uma audição muito sensível, e sofria de verdade com barulhos fortes. Só lhe restava chorar, ela que nem palavra tinha para expressar o medo e a dor que ela sentia.
A menina sem palavras repetia tudo, num comportamento típico do transtorno. Com um grande sorriso, ela estendia a mão e saudava quem passasse na sua frente: “- Bonjour! Bom dia!”, duas, cinco vezes seguidas.
Algumas pessoas devolviam a saudação sincera com ternura e de braços abertos. Então a menina aproximava-se, com as mãos pequeninas estendidas, e analisava o brilho dos brincos, relógios ou outros colares, como que tantos tesouros. E quando se afastava, repetia duas, cinco vezes: “- Até logo! Até logo!”

Mas as vezes esses gestos de carinho, vindos duma criança desconhecida, causavam espanto nas pessoas: “- Os pais não educaram esta menina, que tristeza!” E iam embora, com algum repúdio escrito em letras grandes nas expressões da cara, sem antes ouvir a justificação da mãe e dos avós, como que uma desculpa: “- A menina é autista...
- O que é?” Perguntavam as pessoas, imaginando génios com super inteligência, ou crianças a balançar-se, perdidas num silêncio contínuo, mas nunca uma menina bonita, alegre e comunicativa à primeira vista. Quantas vezes julgamos rápido demais, sem conhecer o que se passa na vida das pessoas!

Quando a menina esgotava o seu silêncio, a revolta e a raiva tomavam conta dela, e o céu azul da sua alegria se transformava em tempestades impetuosas. Raiva de incompreensão, com aqueles olhos cheios de lágrimas que procuravam entender o mexer dos lábios dos adultos, as palavras que tanto confortam quanto assustam, e os seus olhos ficavam a brilhar da revolta de não entender nem conseguir fazer-se entender.
Gritando desesperada, ela punha as mãos nas orelhas, para impedir os sons vindos dum infinito de emoções, que a menina sem palavras não podia controlar.
Era este o mistério dum transtorno silencioso e muitas vezes desconhecido, ao ponto de ouvir que as crianças autistas são mal educadas! A dor não vive de porta fechada... Aquele amor de mãe, de irmãs, e de toda a família, forjou um elo mágico que assegura e abre o caminho, a procura da palavra. A menina sem palavras é um anjinho inocente, cujos ouvidos apurados são surdos às acusações, julgamentos ou rejeições... Ela deixa as suas pegadas nos caminhos da Vida, à procura da compreensão dos adultos, e do seu apoio e reconhecimento.

“Meu Deus, ajuda-me a continuar a caminhar... Quem me dera partilhar minhas alegrias e minhas tristezas com quem me acompanha ao longo do caminho, sem que isso se transforme num pesadelo: apenas sonhos de alegria nessas pequeninas férias!”
E é nas canções dos avós que encontrava segurança no seio familiar, lembranças que reclamava e repetia, duas, cinco vezes, tanto em português quanto em francês:
“- Serra, serra, João Cancela,
Tu com a lima,
Eu com a serra!”

“Dors, Min p'tit quinquin,
Min p'tit pouchin, Min gros rojin
Te m'fras du chagrin
Si te n'dors point ch'qu'à d'main”

Numas férias relâmpago, a menina sem palavras encheu de amor e carinho a casa dos avós, até os passarinhos que cantaram na chegada bateram asas e voaram de alegria: “- Volta, volta, menina da risada cristalina! Não sabes dizer Adeus, ou Au Revoir, diz então: Até logo! Até logo! É o teu amor que aqui fica!”
E o baú da memória da menina sem palavras fecha-se a chave de ouro, guardando das férias tristezas, alegrias, e tantas outras lembranças.
Quem sabe, um dia, alguém encontra a chave, e desvenda para sempre este mistério.

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