Correio do Minho

Braga, sábado

A menos de 1 km da escola

Mercado de Trabalho em Portugal, uma visão crítica

Voz às Escolas

2017-01-26 às 06h00

José Augusto

Desde o clássico “Dá-me o telemóvel já!”, o nosso país é ciclicamente assolado por “tsunamis mediáticos” que invadem e submergem todo o espaço noticioso e ocupam todo o debate público, em réplicas recorrentes ao longo de alguns dias. Porém, seja pela náusea, seja pela falta de paciência para ir além da curiosidade tabloide, rapidamente são esquecidos, até ao incidente similar seguinte.
Um desses temas é o da violência física entre jovens. Há alguns dias, foi o caso sucedido em Almada, com os ingredientes habituais: imagens gravadas por um telemóvel e difundidas através das redes sociais; agressões de grande violência por razões fúteis; passividade ou incentivo dos pares que as presenciam; ausência completa de autoridade parental ou de sistemas eficazes de regras de supervisão familiar sobre as rotinas diárias dos filhos.
Contudo, nada disso é objeto de debate público ou de escrutínio crítico consequente. Contudo, invariavelmente, entre o discurso facilmente desculpabilizador sobre os que, circunstancialmente, acabam como vítimas e o discurso levianamente justiceiro sobre os que, circunstancialmente, acabam como agressores, são chamadas à liça as escolas.
A propósito do caso de Almada, atual na difusão pública das imagens, mas antigo na ocorrência dos factos, uma das estações de televisão fazia passar continuamente em rodapé: “Agressões ocorreram a menos de 1 km da escola”. Esta nota de rodapé resume todo um discurso e compreende uma visão perigosa da realidade.
Notem, em primeiro lugar, no que concerne a informação considerada pertinente sobre a geografia da ocorrência, que nada nos foi dito sobre a distância a que fica aquele beco da residência familiar de cada um dos envolvidos ou da esquadra de polícia mais próxima. Soube-se que o jovem agredido e os jovens agressores não frequentavam a mesma escola. Porém, ninguém considerou pertinente saber em que contexto se conheceram e que relações ou contactos mantinham entre si nas suas vidas para além das escolas que frequentavam. Também se soube que o encontro não foi ocasional, foi voluntariamente combinado, mas não se entendeu pertinente questionar, por exemplo, as intenções prévias com que o então agredido partiu para um encontro num lugar esconso, sem conhecimento dos pais e sem receio de quaisquer consequências. Nada se escrutinou quanto à educação recebida no meio familiar, ou até nas relações de vizinhança próxima, quanto às formas assertivas de resolver diferendos com respeito pela integridade física e moral dos outros; quanto à recusa e reprovação da violência; quanto à compaixão e à consciência do sofrimento infligido a terceiros; enfim, quanto aos mais básicos princípios de humanidade.
Por outro lado, aquela expressão convoca uma espécie de dever de onisciência das escolas. Infere-se dela, sem que se perceba porquê, que, àquela distância, a menos de 1km, a ocorrência não devia ter passado despercebida à escola. Soube-se que o diferendo entre os jovens nada tinha que ver com a escola, nada se passou na escola ou em circunstâncias em que os jovens estivessem à sua guarda ou em atividade escolar, porém, criticou-se a omissão de pronúncia da escola sobre factos tão chocantes. Contudo, nada se ouviu das famílias dos jovens que, pelo menos naquela circunstância, foram os agressores. À data das notícias, vários meses decorridos sobre os factos, apesar das ainda escassas diligências da justiça, também se criticava a escola por não ter agido disciplinarmente sobre um caso que poderia nem conhecer e que não ocorreu na sua esfera de atividade.
Este tipo de discurso é cada vez mais recorrente. É um discurso que remete para as escolas, quase em exclusivo, a responsabilidade da solução, quando não das causas, de todos os problemas sociais. Ora, esse é um discurso perigoso. Ainda que as escolas pudessem substituir-se às famílias e avocar a educação integral das crianças e dos jovens, haveria que discutir se o deveriam fazer.
Cumpre às famílias e, em especial, aos pais e às mães educar os filhos. Às escolas incumbe colaborar com os pais, proporcionando a componente de educação escolar dos filhos. As escolas não podem, nem devem, assumir todas as dimensões da educação integral das crianças e dos jovens. O seu trabalho deve ser supletivo e subsidiário do papel da família. Às escolas cumpre supervisionar as crianças e os jovens no tempo e nos espaços escolares. Tudo o que for além disso, a médio e longo prazo, trará mais mal do que bem. Em casos extremos, sempre que as escolas tiverem, por motivos de força maior, que substituir as famílias, devem fazê-lo pelo mais curto espaço de tempo possível.
A desresponsabilização dos pais dos compromissos inerentes à educação dos filhos é nociva. O crescimento na ausência de supervisão parental eficaz tende a criar futuros pais ainda mais irresponsáveis e incapazes. Nessa matéria, nenhum passo deve ser dado levianamente, sempre que se alarga o perímetro de responsabilidade da escola, aumenta a irresponsabilidade da família e das restantes instituições sociais que deviam enquadrar a educação das crianças e dos jovens.

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