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A mentira é um teste de stress à democracia

O valor das pessoas (2.ª parte)

Ideias

2017-04-03 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Não serão o futuro do jornalismo, porque simplesmente não é de jornalismo que aqui se trata. As “fake news”, as falsas notícias, sempre existiram, mas agora redimensionam-se à escala global. E têm um representante de peso: Donald Trump. Olhando para os Estados Unidos hoje, podemos ver que se vive aí um autêntico teste de stress à sua democracia. Será o país capaz de reconhecer e corrigir o erro colossal que terá sido a eleição de Donald Trump para Presidente?
Um dos últimos número da Time interrogava se a verdade morreu. Percorrendo o longo artigo da revista norte-americana, a resposta é “nim””. Porque, em alguns ambientes, meios de comunicação social incluídos, procura-se incansavelmente uma aproximação àquilo que acontece. Sem rodeios. Sem intenções duvidosas.

É um facto que o paradigma de comunicação parece estar a mudar, porque aqui há um protagonista com um forte poder de agendamento daquilo que faz. Os media de referência não gostam dele, já se percebeu, mas Donald Trump não precisa de atrair a simpatia dos jornalistas, porque dispõe, em permanência, de 140 caracteres, para escrever o que quiser. E todos replicam aquilo que ele faz. Era assim no tempo em que foi o candidato mais improvável do Partida Republicano, é mais assim depois de ter ganho as eleições.

Há, pois, novas regras para o debate público. Regras estranhas, deve reconhecer-se. Porque estamos perante inverdades deliberadas que se constroem numa pseudoreferencialidade que se discute um pouco por todo o lado. A seu favor, Trump apresenta várias situações: disse que ganhou as eleições quando poucos acreditavam nisso, antecipou a vitória do Brexit contra uma opinião publicada dominante que garantia a permanência na União Europeia e falou em ataques na Suécia poucos dias antes de ter havido aí graves tumultos (!). À medida que avançamos neste tipo de argumentário, pensamos estar no domínio do inverosímil, mas... possível.

A Time, porém, toma posição perante aquilo que apresenta. Escrevem os jornalistas que o país precisa de políticos em quem confiar e que a democracia necessita de factos verdadeiros. E nós, enquanto leitores, precisamos de meios de comunicação social assim: sem medo. Hoje, mais do que nunca, fazem-nos falta projetos editoriais fortes, poucos deslumbrados com as esferas do poder, escrutinadores da esfera pública... Paradoxalmente, a atual crise financeira que asfixia as redações subtrai grande parte destes propósitos. Com consequências graves para o nosso futuro.

Também o Courrier International elegeu, esta semana, os media para tema de capa, mas a seleção que fez foi estratificada: escolheu os “media” que promovem Donald Trump: Fox News, The Wall Street Journal, The Daily Caller, New York Post, Breibart, entre outros. O problema é que, ao contrário daquilo que é habitual, estas publicações não autorizaram o Courrier a replicar os seus conteúdos. Curioso. A revista contornou este constrangimento, anunciando que fez uma espécie de revista de imprensa aos respetivos sites, republicando apenas partes dos textos.

Confesso a minha dificuldade em ler esses trechos como se de jornalismo de tratasse. Aquilo que escrevem são propaganda. De registo demagógico. E sem qualquer referente na vida de todos os dias. Se calhar está aqui a popularidade que alcançam e que ganha outra visibilidade quando replicada em sucessivas contas do facebook. “A falsidade tem um efeito viral nas redes sociais”, escreve-se.

Vivemos hoje tempos de consumos diferentes daqueles em que, por exemplo, a minha geração cresceu. Os jovens não leem jornais, nem veem noticiários dos canais de TV. Saltam de site em site e vivem obcecados com as redes sociais. A dependência já se estendeu a outros mais velhos. No entanto, o poder do facebook é ainda muito institucionalizado pelos media de referência. Que também estão “on line”. Precisamos, então, de um jornalismo que descodifique mais, que contextualize de outra forma, que agende outros temas e que fale com outros atores.

Nem sempre, como se comprova pelos EUA, um país elege gente sensata. Nem sempre gente bem intencionada é escolhida para estar à frente das instituições que gerem o interesse público. Mas convém que as democracia sejam capazes de gerar no seu seio mecanismos capazes de expurgar esse tipo de eleitos. Como os tribunais, as instâncias de regulação ou os media...

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