Correio do Minho

Braga, terça-feira

A mentira tem pé curto

Desprezar a Identidade, Comprometer o Futuro

Ideias

2013-01-22 às 06h00

Jorge Cruz

Julgo que o provérbio popular que titula esta crónica tem aqui perfeito cabimento uma vez que corresponde sem quaisquer sofismas à situação que pretendo comentar.
Como dizia o dramaturgo francês Pierre Corneille, “é indispensável boa memória após se ter mentido”, ou seja, a escassez de lembrança contribui para que se apanhe mais depressa um mentiroso do que um coxo, como também diz o ditado popular.
Vêm estas cogitações a propósito das recentes declarações de Passos Coelho em Paris quando, ao ser alvo de protestos de emigrantes portugueses, disse que “ninguém aconselhou os portugueses a emigrarem'.
Como se sabe, foi o próprio Passos Coelho quem, em Dezembro de 2011, aconselhou a emigração aos professores desempregados. 'Angola, mas não só Angola, o Brasil também, tem uma grande necessidade ao nível do ensino básico e do ensino secundário de mão-de-obra qualificada e de professores”, disse em entrevista ao Correio da Manhã. E acrescentou: “Sabemos que há muitos professores em Portugal que não têm nesta altura ocupação e o próprio sistema privado não consegue ter oferta para todos. Nos próximos anos haverá muita gente em Portugal que ou consegue nessa área fazer formação e estar disponível para outras áreas ou querendo-se manter, sobretudo como professores, podem olhar para todo o mercado de língua portuguesa e encontrar aí uma alternativa'.
Mas o défice de memória do Primeiro-ministro também o fez esquecer-se das afirmações do seu secretário de Estado do Desporto quando, em 31 de Outubro do mesmo ano, disse que os jovens portugueses desempregados, em vez de ficarem na 'zona de conforto', poderiam emigrar. 'Se estamos no desemprego, temos de sair da zona de conforto e ir para além das nossas fronteiras', disse o governante à Lusa, acrescentando que o país não pode olhar a emigração apenas com a visão negativista da 'fuga de cérebros'.
Também o ministro que tutela o Desporto deu a sua achega às palavras de Alexandre Mestre e fê-lo precisamente no mesmo sentido, de impelir os jovens a sair do país. 'Quem entende que tem condições para encontrar [oportunidades] fora do seu país, num prazo mais ou menos curto, sempre com a perspectiva de poder voltar, mas que pode fortalecer a sua formação, pode conhecer outras realidades culturais, [isso] é extraordinariamente positivo', disse a propósito. E acrescentou: 'Nós temos hoje uma geração extraordinariamente bem preparada, na qual Portugal investiu muito. A nossa economia e a situação em que estamos não permitem a esses activos fantásticos terem em Portugal hoje solução para a sua vida activa. Procurar e desafiar a ambição é sempre extraordinariamente importante'.
Eventualmente existiriam outras citações que se poderiam trazer agora à colação para demonstrar que as palavras de Passos Coelho não têm qualquer correspondência com a verdade. Infelizmente, para infortúnio dos portugueses, principalmente dos mais desfavorecidos, o líder da coligação já nos demonstrou que afinal, no capítulo das mentiras, José Sócrates é um simples menino de coro quando comparado com Passos Coelho. Atrás de mim virá quem de mim bom fará é o provérbio popular que me ocorre para ilustrar a situação e demonstrar que a ancestral sabedoria popular não é uma treta. Mas, claro, a máxima de Pimenta Machado “o que hoje é verdade amanhã pode ser mentira” também continua a ter muitos seguidores, no governo e fora dele.
Quedando-nos apenas pela mentira da emigração, para conseguirmos encaixar a crónica no espaço habitual, faz sentido lembrar os dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística: o número de pessoas que saiu de Portugal em 2011 aumentou 85% em relação a 2010 e a faixa etária em que mais se registou a saída foi entre os 25 e 29 anos. Por outro lado, ficou a saber-se que em 2011 terão emigrado 3.315 adolescentes entre os 15 e os 19 anos, 1.326 crianças até aos quatro anos, 1.302 entre os cinco e os nove anos e 1.479 entre os 10 e os 14 anos.
Estas estatísticas oficiais comprovam que, de facto, o país está a ficar cada dia mais pobre, mais envelhecido, com menos gente qualificada, enfim, que Portugal está a pôr em causa o seu futuro, está a deixar-se morrer. Sim, porque este fenómeno a que se assiste, incentivado directa e indirectamente pelos próprios governantes, não tem qualquer analogia com a onda de emigração que se viveu na década de 60 do século passado. Agora, na época da governação de Passos Coelho, trata-se de jovens qualificados, quiçá os mais bem preparados de sempre, e muitos deles sem quaisquer perspectivas de regresso ao seu país.
Costuma dizer-se que não foi para isto que se fez o 25 de Abril. É verdade. Foi por causa disto e de muito mais. De muitas mais injustiças, de muitos mais exageros. Não sei se a propósito ou se é o subconsciente a falar, lembro-me das palavras de Fialho d`Almeida no século passado: “Livrem-me desta canalha que me fez odiosa a liberdade, que em paga disso aqui lhes ofereço a minha servidão! (Os Gatos, 1919).

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