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A Mercedes-Benz prefere matar o gordo?

Beco sem saída

Ideias

2016-11-25 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

Durante a década de 1960 as filósofas oxonienses Philippa Foot e Elizabeth Anscombe divergiram sobre questões morais acerca da contraceção e do aborto. Foi nesse contexto que a primeira publicou “O problema do aborto e a doutrina do duplo efeito” (1967), onde argumentou que é eticamente aceitável atuar de acordo com a consciência da possibilidade de uma boa ação gerar como seu efeito colateral um resultado mau. No cerne do seu ensaio, Foot introduziu uma distinção entre males intencionalmente causados e males provocados de modo não propositado e a consequente defesa de que só os últimos são moralmente toleráveis. E para tornar mais claro o alcance da sua posição ofereceu um conjunto de “experimentos mentais”, entre os quais um que a literatura crítica posterior veio a batizar de “problema do trólei”.

Na versão original somos convidados a imaginar alguém a conduzir um elétrico (tramway) que, de repente, enfrenta o dilema de o fazer seguir por um de dois carris, sendo que num deles se encontra uma pessoa que sabe que inapelavelmente irá matar e noutro cinco criaturas que não escaparão a igual fatal destino. Ainda que a nossa suposta intuição moral nos incline para sacrificar um indivíduo a cinco, não somente podem ser introduzidas variações no dilema que nos fazem hesitar nessa tomada de decisão - e.g.: e se a pessoa só for o maior investigador mundial de doenças oncológicas? - como também refinamentos - e.g., a filósofa estadunidense Judith Jarvis Thomson reclamou, em 1985, que fará toda a diferença se estivermos numa ponte a observar um trólei a seguir na direção de cinco pessoas presas à linha e a ponto de morrer e decidirmos empurrar alguém que se encontra ao nosso lado também a assistir a tudo suficientemente gordo para o deter no seu curso e que obviamente não escapará com vida.

Com o surgimento dos carros autónomos, este notável problema transcendeu o plano da especulação filosófica e adquiriu uma insuspeitada importância no mundo real. Christoph von Hugo, um alto responsável da Mercedes-Benz, chefe do departamento de sistemas de segurança ativa do fabricante alemão, declarou no recente salão Mondiale de L’Automobile em Paris que o software incorporado nos seus veículos sem condutor está programado para salvar em primeiro lugar as vidas dos seus passageiros em detrimento das dos transeuntes em situações em que essas sejam as duas únicas opções.

Von Hugo estaria presumivelmente conhecedor dos resultados do estudo publicado na revista Science (24.06.2016) de que apesar de boa parte das pessoas inquiridas parecer estar convencida que os carros autónomos devem estar equipados com algoritmos que, em situações de acidente, optem por salvar o maior número possível de vidas humanas, ainda assim não compraria um veículo desse tipo que colocasse em risco a sua própria sobrevivência.

Embora a conhecida marca germânica tenha vindo mais tarde a negar que os seus carros autónomos estejam equipados com tal “software moral” e a afirmar que “nem programadores nem os sistemas automatizados têm o direito de sopesar o valor de vidas humanas”, o certo é que à medida que esta tecnologia emergente se for impondo não somente ele se tornará cada vez mais premente, como a sua avaliação não poderá deixar de ser atentamente feita. Como resumiu Iyad Rashwan, da equipa do MIT que desenvolve o programa “Moral Machine”, “é difícil identificar quais são os princípios éticos que deveriam governar o comportamento de um carro autónomo”.
E, contudo, cedo teremos que o fazer.

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