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A minha amiga, centenas de colegas e as prioridades deste país

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A minha amiga, centenas de colegas e as prioridades deste país

Voz aos Escritores

2023-09-29 às 06h00

Fabíola Lopes Fabíola Lopes

A minha amiga é professora, licenciada em Português/Inglês (ensino de) pela Universidade do Minho, com anos de experiência e dedicação na bagagem que carrega para cada escola por onde passa. Devido a uma situação familiar e a um erro de distração, não viu o seu nome na reserva de recrutamento de 1 de setembro, não viu que tinha sido colocada num agrupamento de escolas de Oeiras, não estava à espera de ser colocada tão cedo. Mas no dia seguinte, com o telefonema de uma colega, apercebeu-se o que tinha feito: não tinha aceitado o horário escolar para o qual tinha concorrido e sido aceite. Mas também não o rejeitou. 
Erro percebido, pés ao caminho. Fez imediatamente uma audição escrita nos prazos legais e enviou um pedido de levantamento da penalização por esta via. Falou com a DGAE por telefone dentro das 48 horas após ter terminado o prazo e pediu encarecidamente que a deixassem aceitar o horário. É que para quem não sabe, a penalização é ficar sem poder dar aulas até 31 de agosto de 2024. Sim, estão a ler bem. Mas isto nem é o mais grave de toda esta história rocambolesca.
Todos os pedidos foram indeferidos. E as escolas precisam de professores como de pão para a boca, com cerca de 85 mil alunos sem professores. Imaginem se não precisassem.
Dirigiu-se pessoalmente ao Ministério da Educação pedindo que a deixassem trabalhar, já que não tinha recusado o horário, apenas não o tinha aceitado em tempo útil. Disseram que não e que como ela estão centenas de docentes penalizados por erros cometidos na aceitação de horários. Centenas!
Na semana passada foi contactada por mais de seis escolas de Lisboa para aceitar horários completos de português. Dirigiu-se a uma delas para se apresentar tal como lhe tinha sido solicitado por telefone no dia anterior. Escola onde vários meios de comunicação social já estiveram a fazer reportagens e que estão a sofrer uma carência de professores gravíssima, tendo turmas sem professores até 4 disciplinas. Já na escola deparou-se com a impossibilidade de celebrar o contrato devido à penalização. A Diretora contactou a DGAE, expôs a situação e manifestou a sua elevada preocupação, tendo sido instruída para continuar a chamar outros candidatos. A minha amiga está na lista em 4º lugar, os candidatos posicionados acima dela foram contactados e não aceitaram. Os que se seguem têm habilitações suficientes, isto é, cursos que ou não estão ligados ao ensino nem à disciplina de Português ou não estão completos, respeitando apenas o critério de créditos suficientes, ou seja, alunos do 2º ano Universitá- rio a frequentarem o curso de Direito, Geografia e outras áreas. Incluindo este horário turmas de 9º ano e implicando exame nacional, a direção da escola vê com elevada preocupação a preparação dos seguintes candidatos para assumir o cargo, ainda mais quando tinha perante si uma candidata qualificada e disponível. O ME, de forma intransigente, disse que as regras são para cumprir. A arrogância tem pés de barro. Dá-se preferência a pessoas sem qualificações científicas ou pedagógicas para não levantar a penalização a centenas de docentes que estão impedidos de trabalhar por meras falhas administrativas? No ano passado, e depois de milhares de alunos estarem sem professores a uma ou mais disciplinas, o ministério decidiu levantar todas as penalizações em Abril. Sendo a época de exames em Junho/Julho, já podemos deduzir a pertinência e eficácia de tal medida.
As escolas que contactam a minha amiga manifestam todas a mesma preocupação: a falta de preparação, tanto científica como pedagógica, dos candidatos para assumir os horários. Continua desesperada a tentar contornar a situação e a não conseguir compreender como se dá prioridade a pessoas menos qualificadas para assumir turmas de uma disciplina como é a de Português, a levantar uma penalização meramente burocrática e que prejudica gravemente a escola pública. Continua a candidatar-se e a ser impedida de celebrar contrato, embora esteja a ser selecionada por todas as escolas a que se candidatou até agora. Será selecionada quando não houver absolutamente mais ninguém para o lugar e depois de o Ministério levantar a penalização. Antes dela, serão colocadas pessoas com carências científicas e pedagógicas (em alguns casos, graves). 
Manter penalizações é mais importante do que ter professores qualificados na formação de milhares de crianças e adolescentes. 
Se isto não é gestão danosa dos recursos humanos do país, não sei o que será.

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