Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A minha filha? Só quando for de maior idade!

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2016-07-29 às 06h00

Escritor

David Lima

Ao longo de todo o meu curso do Magistério Primário, bacharelato de formação de professores do primeiro ciclo, só ouvia as professoras a dizer, a advertir-nos, que quem quisesse obter colocação teria que concorrer por Beja, Setúbal ou Açores. De facto, todas as minhas colegas foram parar a essas regiões, mas eu arrisquei concorrer por Braga e fiquei colocado a meia dúzia de quilómetros de casa. Fui parar a uma escola em que éramos onze professoras e um professor, eu.
Eu poderia contar mil e uma peripécias desses tempos, mas só vou contar uma, e só dado que já são passados mais de vinte e cinco anos sobre o caso… É que, certo dia, pelo facto de se estar a falar de batizados, uma colega, que tinha uma filha de oito anos a frequentar a nossa escola, disse:
- A minha filha não é batizada… Ela, quando fizer dezoito anos, é que vai escolher a religião e se quer, ou não, ser batizada! Vou eu impingir-lhe uma religião?! Ela tem o direito a escolher!
Aí eu tive suficiente presença de espírito e intervim assim:
- Ena, pá! Gente moderna, liberal, open-minded e práfrentex é outra loiça!!!
Ela sorriu, vaidosa, e eu, logo de seguida, inquiri:
- Olha, a tua filha fala?
Ao que ela, agora num misto de assombro e surpresa, me diz:
- Claro que fala! E tu bem sabes que fala…
- E ela fala português?
Ainda mais espantada, responde:
- Mas que raio de pergunta! É claro que fala português! Querias que falasse alemão? Mas por que é que perguntas isso?!
E eu concluí:
- É que podias ter-te lembrado de a impedir de falar, até ela atingir os dezoito anos. Nessa altura, então, é que ela escolheria se quereria falar ou não. E, caso optasse por falar, só então é que viria a escolher que língua falar… Talvez russo, ou chinês… E parece lógico que só depois é que aprenderia a ler e a escrever…
Aqui entre nós, pensando bem, temos que concordar que deveria ser um direito universal das crianças, e uma obrigação dos pais, velar para que a miudagem tenha a possibilidade de optar, (apenas ao atingirem a maioridade, claro), que religião, país, língua e cultura escolher. Algumas até deveriam ter o direito a escolher os pais! É que no dia em que fazem dezoito anos, os jovens passam, da noite para o dia, a ser eminentemente sábios, indiscutivelmente maduros, altamente responsáveis… Nesse dia passam a poder decidir, porque passam, por qualquer inexplicável efeito de mágica, a saber bem sabido o que realmente querem! Viva o direito à escolha! E até aos dezoitos anos bem podem simplesmente hibernar…
Ah, esquecia-me de dizer que aquela colega gabava-se frequentemente que inscrevera a sua filha como sócia do Benfica poucos dias depois de a ter dado à luz!
Eu acho bem, se os pais são do Benfica, pois os filhos também o terão de ser. Imagine-se que, aí pelos oito ou dez anos de idade, lhe dava para dizer que eram do Braga ou do Marítimo!
Acham bem ter que esperar por ter dezoito anos para poder escolher que clube futebolístico seria o seu eleito do coração? Não pode ser; pais modernos escolhem o clube dos filhos logo na altura do nascimento. Ou muitos meses ou anos antes!
Bem, quanto a mim, com aquela cena aprendi que uma pessoa deve evitar di- zer o que pensa, ou então só arranja inimigos.
E no ano seguinte fiquei colocado na mesma escola!

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