Correio do Minho

Braga, sábado

A minha marca: Portugal!

Mobilidade Sustentável

Ideias

2011-11-13 às 06h00

Carlos Pires

1. Mas que fado foi este que me fez português… Sim, tudo seria diferente se eu hoje estivesse neste planeta como cidadão de um dos países que dizem ser ultra civilizados e que não vivem a contar tostões (género Suécia ou Austrália) - ou mesmo como nacional de um dos países que ditam o destino do mundo (tipo E.U.A. ou Alemanha) ou, ainda, como residente de um país “livre, leve e solto”, cujo dia-a-dia fosse uma infinita alegria e festa, de caipirinha na mão e hawaianas no pé (Brasil). Mas não. Quiseram os deuses que os meus genes fossem lusitanos e que o meu país fosse Portugal. Aquele país que é hoje apontado pelos demais pelas piores razões. Achincalhado e humilhado. Aquele país que arranca o 2º lugar no ranking dos 10 países com risco mais elevado de incumprimento das suas dívidas, apenas ultrapassado no “lugar do pódio” pela Grécia, tendo atrás de si, nessa “distinta corrida”, países como a Venezuela (3º) ou o Paquistão (4º).
Foi mergulhado neste tipo de cogitações que eu iniciei a se-mana que passou. E a semana foi pródiga na confirmação dos piores diagnósticos. Soube-se que o antigo Hospital de Cascais está desactivado desde final de Fevereiro de 2010, após ter sido substituído por um novo, mas continuou a ter um conselho de administração de dois elementos, bem como os 16 médicos e técnicos que o grupo privado que o substituiu não quis e que todos continuaram a auferir remunerações sem exercerem funções. Soube-se que os cerca de 30 mil funcionários públicos madeirenses (mais de 10% da população total!) tiveram direito a três horas de tolerância de ponto para poderem assistir à tomada de posse do estimado líder, enquanto que aos 'cuba-nos' do continente é dito que serão cerca de três horas que terão agora de prestar gratuitamente, em nome da crise financeira do país. Soube-se que Isaltino continua livre. Soube-se que as greves nos transportes públicos pararam Lisboa e o Porto, impedindo milhares de pessoas de irem trabalhar e com isso poderem ajudar o país a sair da miséria em que se encontra. Os grevistas, sabemos, usam um direito constitucional, porque vêem ameaçados direitos. Já agora, e como as novas medidas estão a “castigar” todos os portugueses, o que aconteceria se também todos decidíssemos utilizar tais direitos? Sem transportes públicos, mas também sem água, sem electricidade, sem hospitais, sem tribunais, sem polícia ou sem bombeiros, porque todos descontentes e em greve?

2. Escusado será dizer que estas divagações afectaram o meu estado anímico, ao ponto de me ter refugiado na loja “Fnac”, certo de que o folhear de umas tantas páginas de livros e o áudio de algumas novidades musicais me fariam esquecer por momentos o estado da minha pátria, uma nação de “egrégios avós”. E bendita a hora em que resolvi envolver-me nesse “ópium”. Mal entrei, o meu olhar deteve-se no escaparate das publicações periódicas. Uma capa chamou-me a atenção. No meio das manchetes catastrofistas dos jornais portugueses, o título da prestigiada revista internacional “Wallpaper”, no seu número de Novembro de 2011, parecia vindo de outro planeta: “Top 20 reasons to be in…Portugal”!!! De imediato, apoderei-me sofregamente da revista para conhecer o top 20 das razões para estar em Portugal. É verdade que na capa apareciam referências a outros países — França, Argentina, Canadá, Ho-landa, Emirados Árabes Unidos, China, África do Sul, EUA, Suécia — mas com menor des-taque. Teria a “Wallpaper” - uma das revista de tendências, arte e design mais famosas do mundo - realmente escolhido Portugal como destino preferido? Ou seria puro escarnecer e uma vez mais eu arriscava ver o meu país a ser troçado pelos piores motivos?
Registado para a “Wallpaper” pelo fotógrafo Alberto Plácido, o Douro é a abertura do top 20 luso, sob o mote de vinhas românticas. E que belas fotografias prendem instantaneamente o olhar. As unidades hoteleiras recebem largo espaço na lista, do charme dos hotéis cosmopolitas a moradias recuperadas 'no meio do nada' e outros tantos “idílios rurais”, projectos arquitectónicos, que a revista considera notáveis, de adaptação do design contemporâneo à envolvente rural. O top é ainda preenchido com referências a restaurantes, padarias, chocolatarias e cafés, recantos onde se “reinventa a riqueza gastronómica do país com novas técnicas e um toque pessoal'. O Centro de Investigação Champalimaud (Lisboa), a cidade de Guimarães (Capital Europeia da Cultura 2012) e o design feito com cortiça são alguns dos outros motivos que puseram Portugal na lista da “Wallpaper”.
Li com um orgulho desmesurado as 20 razões que a 'Wallpaper' destaca no nosso país. Apetecia-me dizer-lhes que concordo inteiramente com a lista, mas que assim, de repente, eu acrescentaria mais umas mil (boas) razões! Afinal, a imagem de Portugal no mundo não é a de um país atrasado. O outro mundo, para além do financeiro, está atento a Portugal e pelos melhores motivos. Portugal é “cool”. Os portugueses são vistos como “inovadores” e autores de “ideias brilhantes”. Fazem, pois, todo o sentido as palavras proferidas esta semana, aquando da visita aos E.U.A pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas - o objectivo é vender a marca 'Portugal'! Uma marca cuja prerrogativa, a par da inovação na investigação e ciência, na arquitectura e design, é reactualizar tradições deixadas para trás.
“Portugal has its eyes firmly on the future”, Portugal tem os olhos postos no futuro, refere a “Wallpaper”.

Está na altura de acreditarmos. Está na altura de consumirmos preferencialmente o que é português. E de levantarmos hoje, de novo, o esplendor de Portugal!

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