Correio do Minho

Braga, sábado

A mudança na educação e o novo conceito de emprego

Cinema: dos irmãos Lumière às salas quase vazias...

Escreve quem sabe

2018-09-16 às 06h00

Manuel Barros

Estamos no início de mais um ano letivo. Muito se tem escrito, falado e comentado, sobre este momento que marca, ciclicamente, a vida do País, das comunidades locais urbanas e rurais, dos agrupamentos de escolas, das escolas profissionais, dos institutos politécnicos, das universidades e, sobretudo das famílias. A compra dos livros para os mais novos, a escolha da escola pública ou privada, a escolha do curso e acesso ao ensino superior no interior ou litoral, a integração académica, o apoio social e, o cada vez mais problemático alojamento de estudantes, nas grandes cidades.
Os manuais escolares, o “peso das mochilas” que não reduz, apesar das promessas sucessivas, assumidas pelos responsáveis políticos. O orçamento familiar, que sente cada vez mais a carga de um custo que teima em manter-se em níveis pouco compatíveis com o rendimento disponível, independentemente, do grau de ensino. A reivindicação dos professores e dos investigadores por melhores condições de trabalho e pelos direitos de progressão, em carreiras estagnadas ou precárias, que não vislumbram, neste momento, um acordo de solução.
Uma situação, que no ensino básico secundário se prende com a progressão, a regularização e a integração profissional, e no ensino superior com a definição do futuro dos investigadores precários e a falta de vagas de acesso à carreira docente. Problemas que se repercutem nos vencimentos, na dignificação e na estabilização estatutária da classe profissional de suporte do sistema educativo. Uma “missão” abraçada por milhares de pessoas, profundamente enredadas numa espiral de desrespeito e desvalorização, que em nada favorecem o empenho, a motivação e a capacidade de resposta que as mudanças, os desafios e as reformas do sistema educativo, estão a exigir de forma cada vez mais intensa.
Reformas que se anunciam internamente, através de uma vertiginosa produção legislativa e, externamente, das ideias e dos modelos que nos chegam de outros países. Mudanças propostas por especialistas, que apontam para uma escola diferente e mais competitiva, que passa pelo fim das salas de aula, pela introdução dos tablets e smartphones nas metodologias de ensino, dos manuais desmaterializados e da pedagogia com base no trabalho em equipa. Modelos que “não deixam pedra sobre pedra, no sistema de ensino em vigor”, que vão alimentando resistências difíceis de superar.
Nesta perspetiva, a educação não pode ser entendida, como um mero instrumento para aquisição de conhecimentos para o exercício de uma profissão, mas como um caminho para a formação integral do indivíduo. Ficção científica e pedagógica dirão uns, sinais dos tempos e inovação dirão outros. Mas as mudanças estão a acontecer, e mais depressa do que nos pode parecer. Cerca de duas centenas de escolas já aderiram, e os processos de inovação pedagógica no ensino básico, secundário e superior, estão a acontecer através de dinâmicas que não têm carater obrigatório, mas já estão ao dispor de todos e constam do quadro legislativo que, entretanto, vai sendo publicado.
Os recursos educativos digitais vão ganhando terreno, no ensino publico e privado, mas ainda não chega em intensidade, em quantidade e em velocidade de implementação. Apesar do mérito desta evolução e do empenho das nossas instituições de ensino, a OCDE defende que o nosso sistema de ensino, ainda está muito preso ao modelo de memorização, fazendo com que “os estudantes portugueses tendem a ter boas prestações em tarefas que exigem uma reprodução dos conteúdos ensinados na escola”.
No entanto, não são tão bons na sua aplicação criativa, defendendo que “as instituições de ensino otimizaram um modelo educativo difícil de abandonar, porque no passado deu resultados. Neste sentido, as escolas portuguesas ainda não fizeram a transição para o século XXI, e os estudantes correm o risco de não estarem a tirar partido das novas formas de aprendizagem, que estão a surgir”, conforme indicam as conclusões do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA). De acordo com Andreas Schleicher, Diretor do Departamento de Educação e Competências da OCDE, citado no Relatório Um Novo Paradigma Educativo para Portugal no Século XXI, coordenado por Daniel Adrião,” Portugal tem de educar as crianças e os jovens para o futuro e não apara o passado”.
Este cenário tem alguma razão de ser, olhando para o que se está a passar na Europa nas mais diversas dimensões do sistema educativo. Portugal tem vindo a dar passos significativos a este nível, a avaliar pelo trabalho desenvolvido pelas escolas e pelas instituições de ensino superior, ao nível dos resultados ao nível da investigação e da inovação pedagógica. Um processo moroso, difícil e suscetível de provocar resistências, que precisa de professores e investigadores motivados, valorizados e dignificados, que o atual ambiente de tensão social, organizacional, sindical e política, não incentiva de forma positiva para o seu desenvolvimento.
O nosso sistema educativo, nos seus diversos níveis, ainda é pouco empreendedor. A exceção está a tornar-se regra, dominada por um mercado de trabalho caracterizado pelo zapping labour, e novas gerações estão confrontadas com um novo conceito de emprego, cada vez menos estável. Neste sentido, Alvim Toffler afirmou de forma muito oportuna que, a “revolução na educação, assenta numa mudança em aceleração, em que o futuro não é cognoscível e está cheio de incertezas”, devendo por esta razão, ser sustentada na sua dimensão social e no desenvolvimento das competências de resposta das novas gerações, aos incomensuráveis desafios da sociedade do conhecimento.

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