Correio do Minho

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Ideias

2015-03-04 às 06h00

José Hermínio Machado

Está a decorrer na RTP2 um programa de Tiago Pereira. “O Povo que Ainda Canta, o qual decorre de um programa de trabalho que o seu autor identificou nos termos que titulam esta crónica e que em maiúsculas dá a sigla AMPGDP, programa este que ganhou visibilidade a partir do evento Guimarães Capital Europeia da Cultura 2012 com um trabalho singular «Vamos tocar todos juntos para ouvirmos melhor».

As características deste programa de trabalho de Tiago Pereira estão numa linha de continuidade com todos os trabalhos dos colectores, recolectores, estudiosos e investigadores, da música portuguesa de tradição oral, nas suas múltiplas dimensões: sujeitos intervenientes, causas, circunstâncias e motivos que orientam as práticas musicais, instrumentos implicados, indústrias relacionadas, movimentos coreográficos, momentos e lugares de visibilidade, etc.

Nesta linha de continuidade faz-se sempre uma aproximação imediata ao trabalho de Michel Giacometti e aos seus programas que passaram na RTP e que originaram já outros movimentos editoriais. Também se deveria fazer uma aproximação ao trabalho intensivo de José Alberto Sardinha, ainda que, este não tenha tido produção televisiva ou videográfica.

Mas o programa de Tiago Pereira tem outras características singulares que lhe dão ganho em relação aos anteriores, sendo a principal ideia a de mistura ou de simultaneidade de edição que as práticas musicais mais díspares têm no produto final que é mediatizado.

O autor mantém paralelamente uma linha de criatividade pessoal baseada na utilização «sampladélica» das músicas recolhidas, remisturando-as em novos contextos de produção. Quer pelos sujeitos informantes que regista nas suas recolhas, quer pelos contextos em que o faz, quer pelos comentadores que mobiliza, quer pelo estilo de montagem a que recorre. Tiago Pereira junta tudo para que a gente ouça e veja melhor o que foi e o que é a nossa tradição musical no âmbito de uma configuração que, ainda que não seja pretendida em termos de hierarquização da música, se pode identificar como de natureza popular.

“O Povo que Ainda Canta” é, nestes termos de descrição que apresento, uma fonte de luminosidade sobre as memórias e as vivências musicais que continuam a servir a vida das pessoas e das comunidades em que elas se inserem, umas vezes alargadas à ideia de lugar ou de aldeia, outras vezes ligadas só a um grupo restrito de praticantes, outras vezes ainda integradas numa cultura sobrevivente de indivíduos. No seu programa, estas práticas musicais ganham outra dinâmica, suscitam um desejo intenso de preservação e motivam o enraizamento das mesmas em novos intervenientes e em novos contextos.

Por certo, o programa de Tiago Pereira merece honras de primeira página, merece o reparo e a apreciação continuados nas redes sociais, merece o estudo e a reflexão, merece o aproveitamento. Pelo seu olho de cineasta, pelo seu estilo «sampladélico», pela sua irreverência e pelo seu impetuoso feitio de incomodado neste tempo presente, Tiago Pereira faz passar uma dinâmica criativa que está a mexer nos cadinhos que a tradição mantém vivos e deseja actualizados e apropriados.

Numa altura em que, colectivamente, tendemos a descrer de nós e a pintar cenários catastrofistas, o programa de trabalho de Tiago Pereira é uma lufada de ar fresco e uma abertura de janelas, mesmo quando parece estar a mostrar-nos sobrevivências, fragmentos, restos, apontamentos estropiados, temas repetidos, sujeitos envelhecidos, momentos terminais. Tudo são frutos e sementes de que a nossa terra precisa.

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