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A natureza das opiniões, as novas tribos e a ausência de sentido de comunidade

“10 palavras no caminho? Apanho todas. Um dia construo uma ponte.” HUMOR

A natureza das opiniões, as novas tribos e a ausência de sentido de comunidade

Ideias

2020-11-23 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Se se perguntar a um camponês o que pensa dos apoios dados pelo Estado à investigação científica, não é nada certo que a sua resposta seja a de que não tem opinião, porque não sabe nem entende nada disso. É plausível que possa mesmo dizer, “não concordo que o Estado dê apoios para a ciência, ou lá o que isso é”.
E se porventura se perguntar a um professor universitário, quando é que devem ser sulfatadas as árvores de fruto, também não é nada certo que a resposta seja a de que não sabe, mesmo que o professor viva na cidade e não tenha quaisquer ligações ao campo. É capaz de apostar que as macieiras devem ser sulfatadas, quando florescem, ou então quando as maçãs estão maduras, ou mesmo, pura e simplesmente, que as macieiras não devem ser sulfatadas, porque acredita na agricultura biológica.

Embora faça a salvaguarda de que “As pessoas inteligentes têm muitas dúvidas”, também foi assim que Raquel Varela não deixou de dar a seguinte opinião sobre o Coronavírus: “Há quem defenda que a Suécia por exemplo tem mais imunidade agora e que em Portugal a chegada da Primavera travou a expansão do vírus, o que dará muito mais casos no Inverno (…) O ‘milagre’ [da não expansão do vírus em Portugal, em março e abril] não parece ter sido nem o confinamento nem as políticas públicas, terá sido talvez a Primavera”.
É claro que as opiniões, seja sobre o que for, não valem todas por igual, quem quer que as profira. Em princípio, um camponês está mais habilitado para proferir opiniões válidas sobre a vida das macieiras e de todas as atividades agrícolas de que um professor universitário. E, por sua vez, as opiniões de um professor universitário sobre política científica são, em princípio, mais atendíveis do que as opiniões de um camponês sobre esta matéria. E, na mesma ordem de ideias, as opiniões que uma professora universitária de História possa ter sobre o Coronavírus não são para serem levadas a sério, como o são às opiniões de um virologista.

As opiniões que possamos ter, seja sobre o que for, supõem sempre, a montante, um conjunto de razões que, se não as explicam por inteiro, as condicionam em boa parte. Trata-se de razões relativas a um contexto específico, podendo um tal contexto ser o familiar, a rede de amigos, e mesmo o país de onde se é originário, e também a religião e o partido político, assim como o nível de instrução escolar e o conhecimento das matérias em debate. Isto é o que, aliás, qualquer cientista social pode dizer sobre a natureza das opiniões.
Mas as opiniões também exprimem o espírito de uma época. E então podemos perguntar: que espírito é afinal o da nossa época?

Deve-se a Michel Maffesoli, um dos grandes sociólogos do nosso tempo, doutor Honoris Causa pela Universidade do Minho, em 2011, a caraterização da nossa época, em 1988, como uma sociedade de tribos, uma sociedade de grupos e de multidões, cuja linguagem remete para o regime das emoções, e não o das ideias, uma linguagem que fala à pele, e não à razão, uma linguagem que tem como único compromisso o presente (emocional), e não o futuro (com que todavia sonha uma religião ou uma ideologia).
Com a aceleração tecnológica da época e a sua mobilização permanente para uma competição, um ranking e uma estatística qualquer, a ideia de comunidade perdeu-se e em sua substituição temos agora a tribo. A cultura tribal consome-se em emoção. Não tem outra ética (compromisso) que a da estética (emoção). Não tem um propósito de emancipação social, nem um compromisso de cidadania. Porque não tem no horizonte um sentido de comunidade. A cultura tribal não é regulada por modos de sentir, pensar e fazer democráticos, mas unicamente pelos interesses e desejos da tribo. A tribo sente, pensa e faz como eu. É um egoísmo alargado. A minha tribo não tem outros desejos que os meus. Porque nada na tribo aponta para um horizonte com sentido de comunidade. Não é possível na tribo um horizonte onde seja possível prestar atenção aos mais desvalidos, aos mais frágeis, aos mais vulneráveis, e também não é possível pensar-se na utopia da integração da diferença, e mesmo na integração de todas as diferenças.

Em 1987, Allan Bloom, grande filósofo e académico americano, publicou uma obra sobre o “declínio da cultura geral” na América, ou daquilo a que ele chamou “The closing of the American Mind” (o fechamento do espírito na América). Preocupava-o o modo como “a educação superior defraudava a democracia e empobrecia os espíritos dos estudantes”. Entre nós, as Edições Europa-América traduziram o livro em 2001, com o título A Cultura Inculta.
Passaram três décadas sobre as preocupações que Bloom manifestou em Cultura Inculta. Entretanto, com a aceleração do processo de mobilização tecnológica da nossa época, vimos o debate político na América dar um salto de gigante no sentido da tribalização, não apenas durante a governação de Donald Trump, como também na companha para a nova presidência dos Estados Unidos. Na nossa época, que é o tempo das redes sociais, pudemos ver um Presidente converter uma nação, do tamanho dos Estados Unidos, na sua própria tribo.

O ideal de imprensa livre e democrática, que nasceu no Ocidente com um compromisso de cidadania, trabalhando na construção de um espaço de debate público dos problemas da Cidade, assim como de uma opinião pública alargada, que se interessava pelos problemas da Comunidade, viu-se, de um momento para o outro, preterida e abafada pela conta no Twitter de Donald Trump. E em vez de um lugar de discussão de ideias, o espaço público de uma nação inteira tornou-se o espaço de uma multidão ululante, que ora se emocionava, apaixonava e amava até à loucura, ora se irritava, gritava e enfurecia desalmadamente, sentindo e desejando a uma só pele a mesma coisa que o chefe da sua tribo.
Mesmo que o processo mobilização tecnológica nos permita pensar num espaço público global e numa cidadania igualmente global, a nossa época está em crise. E com a crise da época, entrou em crise a cultura e a própria ideia de humano. Porque não para de desaparecer do seu horizonte o sentido de comunidade.
Voltando agora às redes sociais. Elas constituem, hoje, a melhor ilustração do que são as novas tribos, as tribos de um tempo que vive num regime cada vez mais emocional, que dispensa e abomina a imprensa, e que, cada vez mais, olha com descaso o pensamento, o exercício de cidadania e o ideal de democracia.

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