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A paixão do moleiro de Amares

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2020-07-29 às 06h00

Escritor Escritor

Texto Mariana Azevedo Gomes

O dia tinha amanhecido com nuvens escuras, mas nada fazia prever o que se iria passar a meio da tarde.
Vivia-se o penúltimo domingo do último ano do século XIX. Miguel Ferreira, de Amares, era um jovem astuto e muito trabalhador. Levantava-se sempre às seis da manhã para tratar das lides agrícolas. Passava a semana a moer o milho e a trabalhar nos campos.
Profundamente católico, dedicava-se muito à sua profissão, mas ao domingo não faltava à missa das 10h00, celebrada pelo pároco da freguesia.
Depois da cerimónia religiosa, almoçava em casa e ia para as margens do rio Cávado, onde se sentava à beira do rio. Há semanas que sentia uma atração especial por uma rapariga que passava o tempo à janela, do outro lado da margem, em Dornelas.

Apesar de ser um domingo de chuva, Miguel não faltou a esse hábito, que durava já desde meados de setembro. A rapariga que passava o tempo à janela cantava e encantava Miguel com a sua voz.
Nesse domingo, a meio da tarde, Miguel resolveu pedir emprestado um barco a um dos moleiros da zona para atravessar o rio e, assim, aproximar-se da jovem rapariga com voz de sereia.
Acercou-se a umas dezenas de metros da casa de maneira a ver a jovem mais de perto e observar o seu sorriso suave e tímido. Mas nem sequer lhe dirigiu uma palavra, tal era a vergonha!
Por volta das 17h00 resolveu regressar a Dornelas, utilizando novamente o barco que o moleiro lhe tinha emprestado. Contudo, o vento e a agitação fluvial aumentaram, subitamente, e uma corrente mais repentina virou o barco, ficando Miguel no meio das águas agitadas do Cávado.

Lutou bravamente contras as perturbadas águas do rio, até que encontrou um engenho que servia para apanhar peixes, para onde subiu e se manteve agarrado às pedras e à vida.
Os gritos de socorro do jovem ouviram-se nas duas margens do Cávado, mas de nada lhe valeu, pois ninguém ousou atirar-se à água para o salvar, tal era a força da corrente. A rapariga, por quem Miguel sentia atração, ao ver tal dramatismo, desmaiou no meio de muitos populares.
Os minutos foram passando, as horas foram passando. A noite caiu e ninguém se aproximou do jovem, ouvindo-se rezas e pedidos a Deus para o salvar. Alguns populares conseguiram acender uma fogueira para que Miguel visse uma luz na margem que o iluminasse e o orientasse na sua salvação.

Esta situação manteve-se toda a noite, até às primeiras horas da manhã, e perante a acalmia das águas do Cávado, um grupo de homens de Dornelas deslocou-se até ao jovem, conseguindo-o salvar.
Também a jovem rapariga, que motivou a sua aventura nas águas do Cávado, sentiu uma enorme alegria, ao ver o seu admirador atingir terra firme.
Ao regressar a terra, num estado de saúde muito débil, foi aplaudido pelos inúmeros populares que se encontravam nas duas margens. Foi encaminhado para casa, onde se manteve durante três dias acamado.
No domingo seguinte, depois de ter ido à igreja agradecer a ajuda divina da semana anterior, deslocou-se ao início da tarde às margens do Cávado, tendo então reparado que se encontrava no local, à sua espera, a jovem por quem se tinha apaixonado.

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