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A pandemia política

Corrupção e impacto na economia

A pandemia política

Escreve quem sabe

2021-02-05 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Já não bastava a pandemia provocada pelo covid-19, para aparecer a pandemia política nas últimas eleições presidenciais.
No geral, as pessoas ficaram estarrecidas com o resultado eleitoral do Chega, vendo nele um terramoto que irá soterrar o sistema político. Mas não tanto assim- O novo partido parece não querer destruir o sistema político, mas participar nele. Mas claro que isto tem consequências que não podem menosprezar-se.

Mas, vejamos como nasceram estes movimentos de contestação. Ora, desde os anos 80 que se verificou uma instabilidade dos sistemas políticos ocidentais que se manifestou na volatilidade eleitoral. Nos anos 90, estes movimentos traduziram-se numa nova retórica anti partidos e rejeição dos sistemas tradicionais. Este sentimento nasceu nas elites, mas depressa se espalhou às massas, constituindo causas deste fenómeno: a incapacidade dos partidos tradicionais em promover o bem-estar das populações; a patronage e o clientelismo que se acentuaram com o Estado social; a cultura da Europa central que influenciou os sentimentos anti partido. O resultado imediato traduziu-se no declínio da identificação partidária e das organizações dos partidos. Como consequência, apareceram novos movimentos e partidos, partidos de causas, cujo voto constitui um voto de protesto.

O século XXl assistiu a um novo fenómeno anti- sistema partidário. É o movimento dos partidos populistas. Mudde e Kaltwasser (2019) descrevem o ideário destes partidos populistas. Segundo estes autores, o populismo significa um apelo ao povo (os homens de bem) e uma denúncia das elites. A sociedade estaria dividida entre o “povo puro” e a elite corrupta e defende que a política deveria ser a expressão da vontade geral. Neste ponto, partilham a crítica de Rousseau ao sistema representativo, defendendo uma ligação do líder ao povo, isto sem intermediários. Finalmente assumem-se contra o sistema, que consideram falhado e são fortemente nacionalistas e contra a imigração e outros grupos étnicos diferentes do nacional. São exemplos do movimento populista o Tea Party,, nos Estados Unidos, a Frente Nacional em França, o Fidsz de Vítor Orbán, na Hungria e o Chega em Portugal.
O fenómeno português não é muito diferente do ocorrido em outros países. Os seus eleitores e apoiantes são os restos do salazarismo, conservadores, rurais e uma turva de descontentes e marginais. E, assumindo que o Chega não pretende questionar o sistema político, mas participar nele, a acreditar nas declarações do líder, mesmo assim, significa um terramoto político.

Pondo de lado o CDS que está moribundo, o principal visado é o PSD. Este partido nunca foi um partido homogéneo, mas um agregado de interesses e fações (liberais, social-democratas, conservadores, social-cristãos, rurais e restos de salazarismo). E se o líder não consegue gerir estas contradições, o partido estilhaça-se e parte do seu eleitorado irá engrossar o Chega, como refletem as eleições presidenciais. Por outro lado, parte do eleitorado de extrema-esquerda tenderá a engrossar o partido socialista.
Mais perigoso seria o Chega ser engrossado por descontentes e marginalizados do sistema. O governo tem aqui uma grande responsabilidade porque, então, pode vir aí um terramoto do tipo de Orbán na Hungria.
Estas notícias sobre as vigarices ao sistema de vacinação, pouco significativas sobre a eficácia do Plano de Vacinação, mas caraterísticas da cultura portuguesa da falta de ética e desenrascanço, pode arrastar muita gente para a extrema direita, porque, segundo muitos, só ela pode pôr o país na ordem. Cuidado. Tudo começou assim.

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