Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Parábola dos Talentos

Parabéns ao IPCA

Voz às Escolas

2016-12-01 às 06h00

José Augusto

Antes de partir para uma longa viagem, um senhor chamou os seus servos e entregou a cada um diferentes quantias do seu dinheiro para que lho administrassem. Quando regressou, muito tempo depois, chamou-os para que lhe prestassem contas. Aquele a quem havia confiado cinco talentos, devolveu-lhe dez, fruto do investimento e do trabalho que havia realizado. Da mesma forma, outro, que recebera dois talentos, devolveu-lhe quatro. Um terceiro, que havia recebido um talento, devolveu-o, depois de o ter ido buscar onde o tinha enterrado. O senhor agraciou por igual os dois primeiros e baniu o terceiro, depois de o repreender severamente por se ter limitado a guardar o que lhe havia sido confiado.
Esta narrativa serve de ilustração do novo indicador construído para aferir o trabalho das escolas na promoção do sucesso dos alunos. É sabido que as escolas não recebem todas o mesmo tipo de alunos. Há variáveis de contexto e de procura, entre outras, que determinam uma grande heterogeneidade da população discente de cada escola. Ora, disso, resultam condições de partida que condicionam os percursos escolares e os resultados académicos finais. Logo, para avaliar o trabalho das escolas, não basta saber a quantidade de talentos apresentados no final de cada ciclo de ensino, é preciso saber quantos lhe foram confiados no início e o que conseguiu fazer deles.
Um dos mais inaceitáveis defeitos dos “rankings” tradicionais, elaborados de forma simplista pela imprensa nacional, é teimar em comparar o que não é comparável. Os resultados nos exames finais nacionais de algumas disciplinas nada dizem sobre a evolução desses alunos ao longo do seu percurso escolar - se melhoraram ou se pioraram, se progrediram ou se regrediram. Ainda menos dizem sobre o contributo positivo, negativo ou neutro da escola nessa evolução. Dito de forma simples, as escolas que recebem alunos com melhores percursos no Ensino Básico têm, naturalmente, obrigação de apresentar melhores resultados no final do Secundário do que as escolas que trabalha- ram com alunos com piores percursos até ao 9º ano. Por outro lado, além de comparar a qualidade do grupo de alunos à entrada e à saída, importa verificar se a quantidade se conserva, sem perdas, entre esses dois momentos. Isto é, quantos dos que entraram terminaram o secundário três anos depois, sem atrasos e com resultados positivos. Só assim se pode aferir se os bons resultados nos exames não são obtidos à custa da seleção dos melhores, através das reprovações na avaliação interna e da submissão maciça a exames como alunos externos (que não contam para os rankings).
Pois bem! Finalmente, está disponível, para todas as escolas secundárias do país, públicas e privadas, um indicador que permite aferir a parte dos resultados dos alunos que pode ser correlacionada com o trabalho das escolas.
O 'Indicador Percursos Diretos de Sucesso' analisa o trajeto de cada aluno durante o ensino secundário. Para esse efeito, apura quais os alunos, de cada escola, que chegam ao 12° ano sem reprovações no 10° e 11° e obtêm positiva nos dois exames finais obrigatórios. Por outro lado, são verificados os resultados que cada um desses alunos obteve, três anos antes, nos exames do 9º ano, estabelecendo para o lote de alunos de cada escola uma combinação de perfis de desempenho à entrada do Ensino Secundário que pode ser comparada com o universo nacional de alunos com idêntica composição. Assim, é possível comparar a percentagem de “percursos diretos de sucesso” na escola com a percentagem média nacional de “percursos diretos de sucesso” calculada com os alunos do país que, três anos antes, no final do 9° ano, tinham um nível semelhante ao dos alunos da escola.
Em síntese, identificando grupos de alunos com desempenhos semelhantes à entrada do secundário, pode comparar-se a evolução de uns e de outros à saída do 12° ano e concluir se os alunos de cada escola alcançaram desempenhos superiores, idênticos ou inferiores aos dos seus colegas do resto do país.
Além dos resultados percentuais para cada escola e para o grupo nacional comparável, o referido indicador, disponível no “Portal Infoescolas” (www.infoescolas.mec.pt), classifica como positivos os resultados que se encontram entre os 25% mais altos do país, como negativos os que se encontram entre os 25% mais baixos e como neutros os restantes.
Voltando à parábola, pode assim verificar-se o que fez cada uma das escolas, três anos depois, com os talentos que recebeu no contexto em que trabalha, se os aumentou ou se apenas os conservou (se não os tiver desperdiçado). Porque, no final, quem recebeu dois e entregou quatro tem tanto mérito como quem recebeu cinco e entregou dez. Outrossim, quem recebeu dois e devolveu quatro tem muito mais mérito do quem recebeu cinco e devolveu outros cinco.
No próximo dia 17 de dezembro, veremos se alguma publicação vai fazer um “ranking” nacional com este indicador.

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