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A peste que veio do Porto e alarmou os bracarenses

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A peste que veio do Porto e alarmou os bracarenses

Ideias

2020-09-20 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Tendo por base o tempo de pandemia que atravessamos, irei recordar um momento de grande agitação causado por um vírus que assustou muito a nossa região. Refiro-me à peste no Porto, de 1899.
A cidade do Porto tem sido atingida por várias pestes e epidemias. A Peste Negra, em 1348; a peste de 1481; a de 1521 que transfigurou o Porto numa cidade deserta, durante meses e a de 1581 que provocou enorme miséria na cidade são exemplos disso.
Na obra “Tratado da Peste”, de Curvo Semedo (Lisboa, 1680) é referido que os médicos atribuíam as epidemias de peste a cometas, meteoros, labaredas ou alguma estrela de anormal grandeza que apareciam no céu. Já num tratado sobre os meios de preservação da peste, aprovado em 1746, ainda se atribuía a peste a um castigo divino, aconselhando-se as preces, as penitências e a ajuda de Deus.

A primeira notícia que foi publicada em Braga sobre a peste no Porto ocorreu no dia 11 de julho de 1899, no jornal “Commercio do Minho” e referia o seguinte: “Molestia suspeita – Na rua da Fonte Taurina, no Porto, desenvolveu-se uma moléstia suspeita, de que resultaram 11 casos e 4 óbitos. A auctoridade adoptou rigorosas medidas hygienicas”. A rua da Fonte Taurina era uma velha cangosta do século XIV.
A peste no Porto provocou muito medo em Braga. Assim:
Nos primeiros dias de setembro de 1899 gerou-se uma preocupação em Priscos (Braga). À freguesia tinha chegado um rapaz de 15 anos, proveniente do Porto, e que apresentava um estado de saúde muito frágil. Chamado o Delegado de Saúde de Braga, Dr. Ayres Chaves, no dia 6 de setembro de 1899, o mesmo confirmou que se tratava realmente de um rapaz de 15 anos, trolha de profissão, que tinha vindo do Porto para Vilaça, encontrando-se num adiantado estado de tuberculose. Daí o alarme social que surgiu na freguesia.

No regresso a Braga, vindo de Vilaça, o Delegado de Saúde passou pela freguesia de Tadim, onde foi confirmar o estado de saúde de outro rapaz da freguesia, que também tinha vindo do Porto, para uma visita ao seu pai que se encontrava muito doente na freguesia.
Noutra freguesia, em S. Pedro de Escudeiros, gerou-se um alarme na população, por aí se encontrar um indivíduo vindo do Porto, filho de José Pereira, do lugar de Quintã. O regedor de Escudeiros comunicou este caso ao Delegado de Saúde de Braga que de imediato se deslocou à freguesia acompanhado pela Polícia. No local, Ayres Chaves encontrou o indivíduo a trabalhar no campo, tendo informado o Delegado de Saúde que se encontrava um pouco atordoado porque, ao vir do Porto, com saudades de beber vinho verde, acabou por exagerar e apanhar uma bebedeira, que o fez ficar na cama até mais tarde, o que provocou a desconfiança do regedor da freguesia!
A terminar o mês de agosto a Polícia teve conhecimento da passagem, por Ferreiros, de três indivíduos, a pé, vindos do Porto, e que se dirigiam para o centro da cidade. A Polícia prendeu-os e levou-os para a estação de caminho-de-ferro onde foram inspecionados. De seguida receberam ordens para se apresentarem à referida inspeção, durante os nove dias seguintes.

Também no cemitério de Braga ocorreram alguns conflitos, como o de 31 de agosto de 1899, quando João Pereira de Castro, guarda-mor do cemitério, impediu que uma criança tivesse sido enterrada porque na respetiva na guia de óbito não levar a causa da morte, e também porque o óbito tinha ocorrido 5 horas antes.
O medo em Braga era generalizado. Assim, na tarde de sábado, dia 21 de agosto de 1899, realizou-se um comício no Teatro de S. Geraldo que foi promovido por “uma commissão de cavalheiros a fim de se pedirem ás estancias superiores providencias enérgicas e imediatas que preservem esta cidade da epidemia que grassa no Porto” (CM 22.9.1899). Esta comissão foi presidida por Gustavo Brandão.

Neste comício desempenhou um importante papel de esclarecimento Francisco Carneiro Alves, médico em Goa, e que estava de passagem por Braga. Falaram também vários médicos, entre os quais o célebre António Maria Pinheiro Torres. Álvaro Pipa prontificou-se, perante todos os presentes nesse comício, a ceder gratuitamente, todos os dias, desinfetantes a seis pobres.
A partir daí foi instalado na estação do caminho-de-ferro de Braga um posto de desinfeção, onde marcava presença um médico (Ulisses Braga, da Câmara Municipal), o chefe da esquadra e ainda vários guardas civis. A função era controlar todos os passageiros que chegavam do Porto e desinfetar quer as pessoas quer as bagagens que traziam.

Os moradores da rua do Souto e do largo do Paço organizaram-se para limparem semanalmente estas duas ruas movimentadas de Braga.
O veterinário distrital ficou incumbido de mandar desinfetar os estábulos que proliferavam pela região.
A “Junta de Saúde” escolheu uma casa situada na rua de S. Gregório para aí instalar seis camas para acolher os infetados, ou suspeitos de infeção.
A Câmara de Braga ordenou que os bombeiros municipais lavassem diariamente as ruas, serviço que começou a ser efetuado a 29 de agosto de 1899.

Os cantoneiros também tinham como função desinfetar as bocas de lobo com cloreto de cal e também foram “lançados bolos de strichinina nas referidas boccas, a fim desses exterminarem os ratos que n’ellas existiam” (CM 29.8.1899).
Por fim, convém lembrar que a Peste Bubónica no Porto foi analisada a nível mundial, deslocando-se a esta cidade alguns dos mais notáveis médicos e epidemiologistas da Europa e dos EUA. O trabalho desenvolvido pelos médicos portugueses, nomeadamente Câmara Pestana e Ricardo Jorge, foi elogiado a nível internacional.
Para comprovar a eficácia deste combate, no dia 12 de dezembro de 1899 o “Commercio do Minho” referia que “os boletins da hyghiene municipal do Porto não registaram casos ou óbitos da epidemia reinante n’ aquella cidade nos dias 6,7 e 8 do corrente”.
O Porto ficou isolado durante quatro meses. Foram infetadas 320 pessoas, 132 das quais morreram.

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