Correio do Minho

Braga, segunda-feira

- +

A “portugalidade” como fraca cantiga

Perdidos e achados

A “portugalidade” como fraca cantiga

Ideias

2019-02-11 às 06h00

Moisés de Lemos Martins Moisés de Lemos Martins

Em 1947, Alfredo Pimenta publicou o opúsculo Em Defesa da Portugalidade. E assim introduziu uma expressão-fetiche, de longa duração, no debate sobre a identidade nacional. A partir de 1951, com a revisão da Constituição Portuguesa de 1933, a “portugalidade” tornou-se uma palavra mágica, que carateriza a essência do que é ser português. Estávamos no pós-guerra e emergia, então, uma nova ordem mundial. Sopravam, por todo o lado, ventos anti-colonialistas. A Inglaterra viu o seu império colonial desfazer-se na Índia. E a mesma coisa aconteceu à França na Indochina.
Entretanto, em Portugal, deixou de se falar do Império Colonial Português. E ao passarem a ser chamadas “províncias ultramarinas”, aparentemente as colónias deixaram de ser colónias. O próprio Ministério das Colónias foi rebatizado como Ministério do Ultramar. Mantinha-se, todavia, uma ideia de Portugal, associada ao imaginário da Expansão marítima, dos séculos XV e XVI; a ideia de uma nação portuguesa, “multirracial e pluricontinental”; a ideia de um Portugal contínuo, que se estendia do Minho a Timor.

O nacionalismo salazarista mantinha-se fiel à missão civilizadora de Portugal, enquanto país cristão, ocidental e europeu. Mas a "função histórica essencial” da nação portuguesa deixou de poder ser formulada como a de um país “com temperamento colonial”, com o direito de “colonizar domínios ultramarinos". A nova estratégia política perseguia agora o sonho de assimilar o Outro, apagando-o na sua diferença, pela ordem civilizadora da metrópole. Mas nada de império. Nada de colónias. Por essa razão, o Ato Colonial de 1911, que havia sido retomado pelo Estado Novo na Constituição de 1933, foi revogado na revisão constitucional de 1951.
A figura “portugalidade” converteu-se, de facto, numa palavra-fetiche, de tão longa duração que ainda hoje floresce na nossa classe política e entre académicos, correndo, a bom galope, no espaço público. António Ferronha publicou, em 1969, Ideário de Portugalidade. António de Spínola publicou, em 1973, Por uma Portugalidade Renovada. E vamos encontrar a figura da “portugalidade” na nova ordem democrática, a coexistir com a figura de “lusofonia”, que a prolonga e que com ela joga ao esconde-esconde.

“Portugalidade” e “lusofonia”, assim como o seu imaginário, aparecem, então, tingidos de nostalgia imperial e amassados na ficção, a um tempo piedosa e falsa, de que Portugal fez uma colonização doce e sem violência. Essa ideia, de uma colonização diferente de todas as outras, apenas pode carregar, no entanto, as cores de uma excecionalidade portuguesa, que não existe.
Manuel Alegre utiliza recorrentemente a palavra “portugalidade”. Gabriela Canavilhas, também o fez, na qualidade de Ministra da Cultura de um governo socialista. No entanto, a Obsessão da Portugalidade (2017), de que fala Onésimo Teotónio Almeida, não é uma obsessão apenas para o centro esquerda. Também o é para o centro direita, de Cavaco Silva a Marcelo Rebelo de Sousa. Enquanto Presidente da República, Cavaco Silva convocou a figura e o imaginário da “portugalidade”. Por sua vez, Marcelo Rebelo de Sousa também não desdenhou recordar Mário Soares, aquando do seu falecimento, em 2017, como um "singular construtor de portugalidade”.

Em “Os elementos fundamentais da cultura portuguesa”, o etnólogo Jorge Dias retomou, em 1961, a ideia de que Portugal nasceu à sombra da Igreja, tal como Salazar o havia defendido em 1949. Tinha razão, todavia, Joaquim Barradas de Carvalho, por contrariar esta visão da história, seis anos mais tarde, em 1955. A “reconquista” tinha acabado, em Portugal, por meados do século XIII, pelo que a formação do país não tinha ocorrido, antes de mais, na luta contra o Islão, mas contra Leão, e depois contra Castela, ou seja, contra reinos cristãos. Em finais do século XIV, de 1383 a 1385, ainda lutávamos contra Castela. E de finais do século XVI a meados do século XVII, ficámos mesmo sob o domínio de Espanha; embora, tenhamos voltado a ficar independentes, em 1640, então a título definitivo.

Penso que Jorge Dias é o pai da atual “obsessão da portugalidade”, embora Fernando Cristóvão lhe tenha dado uma boa ajuda, em Da Lusitanidade à Lusofonia (2008). Este imaginário mistura-se, muitas vezes, com um conjunto de estereótipos e equívocos. E essa circunstância tem levado muitos investigadores das Ciências Sociais e Humanas a recusar, tanto a figura de “portugalidade”, quanto a figura de “lusofonia”. Porque ambas as figuras se cruzam com um passado, de muito má memória. O sonho que remete para a “uniformidade católica do país”, assim como o sonho das caravelas, em permanência com as velas enfunadas, constituem um imaginário que apenas pode ser dado por definitivamente encerrado.

Mas, neste contexto, tem-se afirmado um outro imaginário, que Harold Bloom, em 1994, no Cânone Ocidental, e Marc Ferro, em 2007, em O Ressentimento na História, classificaram como um imaginário do “ressentimento”. Exagerando, Harold Bloom considera mesmo que os estudos pós-coloniais nasceram desse ressentimento. De toda a evidência, o ressentimento tem um peso na história. No entanto, estamos perante uma realidade, que pode surgir e ser alimentada de ambos os lados, tanto do lado dos antigos colonizadores, como do lado dos antigos colonizados.

A traços largos, são estes os termos do debate e é este o contexto histórico, que enquadram a tese de doutoramento em Ciências da Comunicação, que Vítor de Sousa defendeu, em 2015, na Universidade do Minho. Entretanto publicada em livro, Vítor de Sousa apresentou Da “portugalidade” à lusofonia, na sexta feira passada, 8 de fevereiro, na sua terra natal, em Penafiel, no salão da Biblioteca Municipal, apinhado de gente, calorosa e interessada.
E foi este, igualmente, o ponto de partida para a entrevista, que concedi ao programa No Interior da Cultura, da Antena 2 da RDP, transmitido, também, na sexta feira passada. Foi meu objetivo apresentar publicamente o Museu Virtual da Lusofonia, uma plataforma informática de cooperação académica, sobre as relações interculturais no espaço dos países de língua portuguesa.
O Museu Virtual da Lusofonia propõe um sonho de lusofonia, que é outra coisa que os seus muitos equívocos. É aí feita a proposta de uma circum-navegação tecnológica, uma travessia, a ser realizada por todos os povos lusófonos, no sentido do interconhecimento, e também da cooperação, cultural e científica.

Deixa o teu comentário

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.