Correio do Minho

Braga, terça-feira

A pousada camarária

O que nos distingue

Ideias

2015-05-26 às 06h00

Jorge Cruz

Decididamente a Câmara Municipal de Braga vai operar na área da hotelaria, fazendo concorrência directa pelo menos a algumas das unidades do sector sedeadas no concelho. A confirmação foi feita pelo próprio presidente da Câmara ao JN, tendo Ricardo Rio adiantado também que essa sua opção vai implicar 800 mil euros de investimento e que “será tudo feito com verbas municipais, sem apoios comunitários”.

Esta operação resulta, segundo foi explicado, de um acordo de gestão que vai ser celebrado nos próximos dias entre a Movijovem e a Câmara, nos termos do qual a autarquia assume a renovação da Pousada de Juventude, que contempla o alargamento do número de quartos da unidade existente e a criação de um centro integrado de juventude. Após as beneficiações, a autarquia assumirá por inteiro a gestão das instalações, o que se prevê possa acontecer até ao final do ano corrente.

Esta repentina propensão de Ricardo Rio para a hotelaria levanta um conjunto de questões que em minha opinião devem ser claramente esclarecidas. Desde logo, o facto de as autarquias não estarem vocacionadas para este tipo de actividade empresarial, até pela concorrência desleal que a operação vai fomentar, conforme já foi reconhecido por responsáveis de unidades hoteleiras da cidade que têm tido clientes oriundos do mesmo público-alvo das pousadas.

De facto, é natural que os empresários fiquem apreensivos quando vêem que os impostos que pagam são utilizados para lhes criar dificuldades, isto é, para sustentar uma unidade que lhes faz concorrência directa e desleal. Consideram que ao invés, a Câmara deveria adoptar uma política de maior respeito pela actividade privada do sector, o que poderia passar por negociar com os hoteleiros uma bolsa de camas para jovens a preços ajustados

Não se percebe, por outro lado, a insistência do presidente da Câmara em desbaratar dinheiros públicos numa aposta incompreensível, do ponto de vista dos interesses de Braga. Com efeito, já foram desembolsados milhares de euros, sem quaisquer contrapartidas para o município, apenas porque nos dois últimos anos Ricardo Rio cedeu às chantagens da Movijovem, expressas sob a forma de ameaças de encerramento da pousada. Ora, tendo em conta as degradantes condições que aquela unidade oferece, não tenho qualquer dúvida que do ponto de vista da promoção turística e da imagem da cidade, o encerramento nessas condições seria mais benéfico do que prejudicial para Braga.

Aliás, toda a gente sabe que a evolução que o turismo jovem registou nos últimos anos secundarizou o papel relevante que as pousadas de juventude outrora desempenharam. O aparecimento de novos conceitos, como os hostels ou o ”couchsurfing”, por um lado, e o desinvestimento da Movijovem nas pousadas, com a consequente deterioração das condições oferecidas, por outro, conduziram à presente situação: salvo honrosas e raríssimas excepções, as pousadas de juventude não são atractivas e, em consequência dessa falta de atractividade, acumulam enormes prejuízos.

A esta luz dificilmente se entende a autêntica fixação de Ricardo Rio na pousada da rua de Santa Margarida. É que além do investimento, pelo menos de 800 mil euros, o histórico da gestão corrente também não é nada animador para a nova gestão. E nem sequer se sabe se as declarações proferidas em tempos pelo presidente da Movijovem terão aplicabilidade no caso de Braga, mas o certo é que Ricardo Araújo disse que o concessionário passará a ser responsável pela manutenção das instalações e terá de pagar uma renda de 15% sobre a facturação das dormidas.
Com esta decisão também cai por terra a garantia em tempos dada pelo presidente da Câmara de que a nova pousada da juventude seria no edifício da antiga escola Francisco Sanches.

Curiosamente, essa promessa foi feita na mesma altura em que também foram dadas garantias de que a reconversão do projecto da piscina olímpica, parado desde 2008, seria uma prioridade da coligação de direita que governa a Câmara. Será apenas uma coincidência?


Mas para que não se possa dizer que apenas abordo nestas crónicas os aspectos negativos da governação, quero expressar aqui o agrado pela orientação que está a ser dada a uma iniciativa da anterior gestão municipal, a Braga Romana. Este é, aliás, um excelente modelo daquilo que deveria ser a atitude a seguir por todos os agentes políticos, nos diversos níveis da governação: aproveitar tudo que é válido, dar-lhe continuidade, eventualmente introduzindo-lhe os retoques ou aperfeiçoamentos que possam resultar na sua afirmação e engrandecimento. Parece-me que é precisamente isso que está a suceder, por um lado com maior respeito e rigor pela história da época, o que também passa por uma filtragem mais cuidada dos expositores, e, por outro, pela acção pedagógica junto da população, em particular da comunidade escolar.

Creio que o sucesso que a Braga Romana registou, uma vez mais, na edição que terminou no passado domingo decorre também dessa aposta na continuidade, uma aposta que mantém as linhas programáticas fundacionais do evento, embora introduzindo os aperfeiçoamentos julgados necessários.

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