Correio do Minho

Braga, sábado

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A Praxe Académica

Lance de charme

Ideias

2014-02-07 às 06h00

J.A. Oliveira Rocha J.A. Oliveira Rocha

Já tudo foi dito sobre a praxe. Para uns, trata-se de um ritual de integração que algumas vezes extravasa os seus objectivos, caindo na alçada do Código Penal. Para outros , é uma patologia social que deve ser extirpada e proibida. Entendo também que toda a praxe é uma anomalia social, uma estupidez e um atraso mental. Mas não se extingue por decreto, porque retrata uma sociedade e uma cultura retrógrada e interessa a muita gente que se mantenha. Para esta gente o ideal é um país dócil , uma sociedade com respeitinho em que cada um ocupe o seu lugar.
Mas vejamos a sua evolução mais recente.
Cheguei a Coimbra em plena crise académica de 1969. A praxe havia sido abolida pela Associação como consequência do luto académico. Mas alguns dos seus adeptos continuaram a tradição. Participei ativamente na luta contra os que usavam a praxe como manifestação do status quo. E durante dez anos não se ouviu falar em praxe, para renascer nos anos oitenta, não apenas em Coimbra, mas também nos mais remotos lugarejos deste país onde havia uma universidade, um politécnico, ou uma escola privada. E tornou-se tanto mais violenta quanto menor o prestígio da instituição.
Reitores , diretores, associações e muitos professores apadrinhavam esta excrescência. Sou do tempo em que os reitores presidiam do varandim ao Cortejo Académico e o dux, o papa, ou general tinha assento ao lado do reitor na abertura do ano lectivo. Gerava-se a ideia que depois das dificuldades do secundário e do acesso à universidade, se seguia um período de distensão e festa. A universidade era vista como um lugar de recreio e não um lugar de estudo e de educação.
E quase todos legitimaram esta cultura. E como afirmou na televisão um antigo dux, o chefe da praxe era tanto, ou mais importante que o reitor. De resto, os reitores precisavam do apoio dos estudantes, porque sem estes não seriam eleitos.
Mas voltando à praxe os seus defensores tratam-na como ritual de iniciação e um processo de integração. Quanto ao primeiro ponto, importa lembrar que os rituais de iniciação só fazem sentido em associações fechadas; ora com a democratização do ensino, a característica da antiga praxe desapareceu. Quanto à integração, não se percebe como se integra alguém numa organização, quando se humilha, se pisa e se trata como animal. A praxe prepara para a vida, ainda que um determinado estilo de vida em que os que mandam amesquinham a maioria que obedece. Mas uma sociedade de senhores e escravos só pode ser tratada de fascismo. É preciso chamar as coisas pelos nomes e não brincar com coisas sérias.
Já não bastavam as creches partidárias que ensinam aos jovens o vale tudo, para chegar ao topo, para até a maçonaria criar escolas para iniciar os jovens nos seus princípios e rituais.
Estamos a preparar os jovens para aceitar tudo, obedecer, enfim um país de senhores e escravos.
Mas para que não se diga que só critico, aqui vai uma sugestão: devem os reitores e directores serem responsáveis pelo que se passa no campus universitário e nas instalações académicas e serem accionados quando ocorra algum comportamento que atente contra a dignidade humana, ou contra os objectivos da universidade que é ensinar, formar e incutir o sentido crítico Trata-se duma consequência da autonomia. Mas independentemente desta responsabilidade, a acção disciplinar não se esgota na área do campus, podendo funcionar relativamente a comportamentos anti- académicos, fora das instalações. Sem espírito livre o país desaparece. É melhor fugir. Quem puder que o faça.

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