Correio do Minho

Braga, segunda-feira

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A pretexto de coisa alguma

Parecer (técnico)

A pretexto de coisa alguma

Ideias

2018-10-22 às 06h00

Filipe Fontes Filipe Fontes

Há momentos em que a folha branca, limpa e sem marca de tinta da caneta ou de grafite do lápis, interroga e, muitas vezes, angustia aquele que, no caso “escritor”, necessita de escrever… Há momentos em que a dita “obrigação” (seja por compromisso assumido, esclarecimento necessário ou convicção que se exterioriza) de partilhar reflexão e pensamento invoca, no caso o “escritor”, a redescobrir temáticas esquecidas ou desvalorizadas, banalizadas ou segregadas, num esforço de encontrar resposta às suas necessidades, mas também de gerar oportunidade de visibilizar muitos daqueles temas que não são protagonistas da escrita e desenho sobre a “Urbe”.
Dir-se-á que tudo não passa de saber transformar a dificuldade em oportunidade. Dir-se-á mesmo que feliz é aquele que vê no confronto da ausência de resposta à sua pergunta vários caminhos a seguir, vacilando não pela impossibilidade do silêncio mas pelos ecos vários gerados…

Na escrita sobre a cidade, a ausência de temas ou assuntos é tão invulgar e rara que, seguramente, não se coloca. Antes pelo contrário, o fervilhar desses mesmos temas e assuntos é tão grande e, por vezes, tão intenso que ao escritor poderá apenas ser imputado o pecado de tudo não abarcar, sobre tudo não saber escrever ou pensar, perante tudo não ser capaz de seleccionar e priorizar. Não raros dirão que é tudo uma questão de perspectiva: se assumirmos “o copo meio vazio”, então, ficaremos sempre aquém e, por muito que se escreva e reescreva, a frustração pelos “temas por tratar continuarem a aumentar” será proporcionalmente maior.
Ao contrário, se aceitarmos “o copo meio cheio”, então, tudo será motivo de crescimento e perspectiva. E tudo será bem-vindo na aceitação que tudo soma (e conta) para encher o copo.

Tento transcrever de memória fugaz, palavras de José Avilez, lidas numa entrevista algures no tempo: “tenho mais alegria em correr do que em chegar à meta”. E tal, para concluir que, na cidade e perante a cidade, talvez seja esta a atitude a perseguir: a cidade é um processo que se constrói diariamente, nunca se fechando, concluindo ou abarcando na globalidade, nunca se percebendo quando verdadeiramente começou ou foi gerado.
E, sendo assim, a ambição não se deve centrar no resultado final, a ser submetido a avaliação última para, depois, “perenizar” no tempo e espaço urbano. Pelo contrário, a ambição deve focar-se no processo, isto é, na oportunidade que representa cada dia em acrescentar valor e qualidade à cidade, resolvendo problemas, respondendo a necessidades, satisfazendo vontades, abraçando projectos, na certeza de que estes, todos eles, gerarão (mais) novos desafios, problemas e necessidades, num ciclo regular que não se cansa de repetir mas que, afinal, é o grande alimento e riqueza da própria cidade.

Na leitura feita por cada um, tende-se a avaliar a dinâmica de uma cidade (ou da Cidade) pelo “borburinho” gerado no seu quotidiano, na sua capacidade de polemizar e discutir (seja política ou tecnicamente) o espaço urbano e tudo o que é feito. De alguma forma, tende-se a depreciar o silêncio e o ritmo lento e discreto que tantas acções anónimas reflectem. De igual modo, tende-se a desvalorizar e hierarquizar temas e assuntos pelo seu impacto diário e repercussão na vida comunitária. Por vezes, hipervalorizamos construções e funções (que, depois, na prática se revelam, afinal, inócuas e não predadoras da qualidade de vida urbana, e como antes temido); por vezes relegamos para plano secundário acções que não entendemos (e não nos esforçamos para tal) que, por não produzirem impacto, protagonismo e evidência imediata, não nos perturbam (… só despertando muito mais “à frente”, quando ganha corpo e presença na cidade); por vezes, lutamos pela defesa do património mas esquecemos que, tão importante como tal, é construir património; por vezes, e como “na gíria” tanto se repete, “não queremos saber” da toponímia, do mobiliário urbano, das infraestruturas que percorrem o subsolo, da gestão da ocupação do domínio público com eventos e esplanadas, do acerto de materiais e revestimentos de pavimentos; por vezes, refugiamo-nos nas dificuldades de divulgação e convite para a participação pública como justificação e “álibi” para a nossa ausência. E, tantas vezes, centramo-nos naquilo que é visível, produz “títulos”, efeitos predadores nas redes sociais. E esquecemo-nos de que tudo é cidade e faz parte da cidade. E é em nome de todos estes factores descritos (e tantos outros mais) que se constrói a identidade e afectividade de uma cidade e se alimenta a sua dinâmica e crescimento.

Desconfiar, reflectir, cultivar a paciência e o equilíbrio, imaginar, criticar, sonhar, compreender, concertar, aceitar, …, tudo faz parte do exercício que cada um tem direito e dever… de materializar.
Tudo isto, que aparenta ser nada e pouco dizer, a pretexto de uma conversa com amigo sobre como escrever uma crónica sobre assunto nenhum… E, mesmo querendo escrever sobre assunto nenhum, por muito esforço que se faça e branca seja a folha, afinal, há sempre assunto. Mesmo que pareça esquecido e disfarçado na folha branca. (Também) talvez por isso, a cidade seja tão apaixonante!

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