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A primeira religiosa a ser sepultada no Cemitério de Braga

Um PS sem ambição

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A primeira religiosa a ser sepultada no Cemitério de Braga

Ideias

2023-12-10 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

As imensas sepulturas que existem no cemitério de Monte de Arcos, em Braga, inaugurado em 1870, levanta-nos algumas curiosidades, nomeadamente quem teria sido a primeira religiosa a ser sepultada nesse espaço.
Foi por altura do Natal, exatamente a 23 de dezembro de 1874, que a madre Luiza Maria da Natividade foi sepultada no cemitério de Braga, quatro anos e meio após a sua inauguração.
O excesso de população que se verifica atualmente no mundo tem trazido problemas relacionados com a eficácia das tradicionais sepulturas.
Um pouco por todo o lado vemos cemitérios sobrelotados e as dificuldades reveladas pelos municípios para resolverem este problema. Algumas Câmaras Municipais criaram já os tanatórios, para desta forma tentarem minimizar esta questão.
Este tipo de dificuldades já ocorreu na altura em que se sepultavam os cadáveres nos interiores das igrejas, prática que foi sendo abandonada com o decorrer do século XIX, embora em Braga esta tivesse sido mantida até quase meados do século XX.
As questões relacionadas com a saúde pública, provocadas pelas sepulturas no interior das igrejas, fez com que o Município de Braga resolvesse criar o Cemitério Público, do Monte de Arcos, cuja inauguração ocorreu a 1 de julho de 1870.

Apesar da sua inauguração, foram muitos os que continuaram a sepultar os seus familiares no interior das igrejas, mantendo desta forma em perigo a saúde pública. Então, a obrigatoriedade de sepultar os cadáveres nos cemitérios não foi respeitada, inclusivamente, pela própria Igreja bracarense, uma vez que só passados quatro anos e meio é que a primeira religiosa foi sepultada no Cemitério de Monte de Arcos.
Foi a dois dias do Natal, como vimos, que a madre Luiza Maria da Natividade foi sepultada no cemitério de Braga. Tinha falecido a 21 de dezembro de 1874. O semanário bracarense “O Brado Liberal”, de 25 de dezembro de 1874, refere que “no dia 23 pelas 11 horas da manhan, foi conduzida para o cemitério publico d’esta cidade de Braga, do convento de religiosas da Penha de França no Campo de Sanct’ Anna, a ultima freira” deste convento.
Esta fonte esclarece que se trata “da primeira religiosa dos conventos d’esta capital do Minho, que é sepultada no cemiterio publico da cidade”. Acrescenta ainda que “Todas as mais atégora fallecidas, apesar das estatuições expressas da lei, tem sido sepultadas no interior dos conventos onde falleceram, sem exterioridades que o tenham dado a conhecer ao publico”.

Também “O Commercio do Minho”, de 24 de dezembro de 1874, refere que “Falleceu, ha dias, a ultima religiosa de veu preto, professa, do convento de N. Senhora da Penha de França, (…) sendo em seguida conduzida para o cemiterio pela V. Ordem Terceira de S. Francisco, por ter pertencido á Ordem franciscana da mais austera observância”. Acrescentava ainda que a madre Luiza Maria da Natividade “contava mais de noventa annos, e era d’uma das mais antigas casas d’esta terra”.
A morte desta religiosa causou enorme emoção em Braga e nesta região, pois significou o encerramento do convento de Nossa Senhora da Penha de França, que tinha sido fundado em 1727, pelo arcebispo D. Rodrigo de Moura Telles, sendo o primeiro convento de religiosas que se fechou em Braga.

O falecimento desta religiosa de “véu preto” entristeceu ainda, quer os membros da Igreja bracarense, quer também os mais desfavorecidos, pois esta “virtuossima senhora tem sido causa de lagrimas e famintos para grande numero de habitantes d’esta cidade, especialmente para as meninas do côro que se achavam recolhidas n’aquelle convento, o qual por este acontecimento está prestes a fechar-se” (Id.).
O encerramento do convento, que aconteceu exatamente a 1 de janeiro de 1875, constituiu um enorme desassossego social, pois eram imensos os serviços sociais e humanos, nomeadamente aos mais desfavorecidos, que esta instituição realizava, apesar do estado de grande degradação.

O estado em que se encontrava o convento de Nossa Senhora da Penha de França era absolutamente abominável. Apesar disso, as últimas senhoras que aí tinham procurado refúgio mantinham a sua dignidade. Segundo o “Jornal do Minho”, de 4 de janeiro de 1875, “Compungia, cortava o coração ainda o mais duro, vêr a miséria que se albergava n’aquella casa, em que, além da pobre freira, se haviam refugiado do mundo mais outras senhoras, e algumas d’estas pertencentes a famílias com meios de fortuna. Era admiravel a resignação e paciência com que todas essas criaturas soffriam com a alegria no rosto as privações da miséria”.
Foi na tarde de 31 de dezembro de 1874 que Braga assistiu a “uma das scena» mais commovenes, e que difficilmente poderia descrever-se. Queremos falar da saida das irmãs de veu branco e das meninas do coro que se achavam recolhidas no convento de N. Senhora da Penha de França” (“O Commercio do Minho”, de 5 de janeiro de 1875).

Perante a ordem de encerramento, o “delegado do thesouro como fiscal da fazenda publica, d’accordo com a auctoridade ecclesiastica e administrativa foram, horas depois da sahida do seu cadaver para o cemiterio, cumprir o doloroso dever de inventariar tudo que havia no convento” (“Jornal do Minho”, de 4 de janeiro de 1875).
As últimas quatro senhoras expulsas do convento de Penha de França e a abandonar a instituição agora encerrada foram acolhidas no convento dos Remédios. Encontravam-se em avançada idade e sem família para lhes dar um abrigo digno.
As instalações do convento de Penha de França deram origem ao Asilo de Infância Desvalida de D. Pedro V, inaugurado a 12 de maio de 1879, quatro anos e meio após o encerramento do convento, que viu a sua última freira ser a primeira religiosa a ser sepultada no Cemitério do Monte de Arcos.

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