Correio do Minho

Braga,

A projecção das cidades

Amigos não são amiguinhos

Ideias

2018-06-04 às 06h00

Filipe Fontes

A projecção das cidades é, hoje, factor visível e considerado imprescindível a uma urbe que deseja protagonizar papel relevante no mundo (seja este entendido de forma absoluta o mundo geográfico e global, da Améria à Ásia seja este entendido de modo relativo o mundo que nos rodeia e influenciamos, o nosso mundo).
A projecção das cidades é também desejável no pressuposto de que representa e visibiliza o que estas melhor oferecem de condições de vida e conforto a quem habita o espaço urbano as pessoas.
De tal forma esta projecção das cidades é incontornável que, actualmente, há cidades que suplantam regiões e países, produzindo economia, residência, cultura e dinamismo sem paralelo.

Todavia, e numa perspectiva mais próxima, aquela do nosso mundo, reconhece-se que, nunca como hoje, se verifica uma sede de protagonismo, de afirmação das cidades e da sua inflação e empolamento acentuadamente expressivo (mas, ao mesmo tempo, adulterado) traduzindo esta realidade uma competição pelo epíteto a melhor que nada (é convicção) significa de (boa) projecção, nada acrescenta à qualidade espacial das cidades e qualidade de vida dos respectivos habitantes.
Três áreas onde esta realidade se julga tão plasmada e visível: os eventos/festas (estaremos na presença da festa na cidade ou de uma cidade de festa?), a comunicação (divulgar para formar e informar ou para publicitar?), o investimento (a cidade como investimento ou a cidade do investimento?).

Transformando o espaço urbano num palco permanente de exposição e actuação de múltiplos temas e actores, oferecendo à cidade um conjunto de acontecimentos sejam eles festivais musicais, eventos de cariz históricos, encontros desportivos, entre outros, hoje a cidade reconfigura-se não como um espaço de vivência quotidiana, respondendo às suas necessidades residenciais, laborais, de lazer, culturais, sociais, mas sim como um pretexto (e contexto) para que aconteçam coisas que chamem pessoas e negócio e que, como muitos dizem coloquem a cidade na boca do mundo.
Muitos dizem que se disneyfica a cidade, outros alegam a sua adulteração. Seja como for, evento em evento, esquece-se da cidade enquanto casa e do conforto que os seus habitantes (nos seus múltiplos papéis) devem possuir.

A ânsia do sucesso é tanta que a atracção por mais (e mais) pessoas é ainda maior, preenchendo-se o espaço público de tal forma que não se deixa usufruir o evento, nem se deixa apreciar a oferta cultural, nem se deixa viver o espaço público quem o percorre, nem se deixa marca cultural de crescimento e cidadania.
Porque comungando do mesmo princípio, assiste-se hoje a uma massificação da dita comunicação na cidade, sobretudo ao nível institucional. Tudo supostamente se comunica numa banalização do que vai acontecendo na cidade sem (aparente) seriação hierárquica e num tratamento igualitário onde tudo se perspectiva na exaltação, excepcionalidade e autoria do acontecimento. Na verdade, julga-se que muito se confunde entre comunicação e publicidade, entre dar a conhecer projectos e medidas de impacto para a cidade (criando condições de formação e informação na indução de participação pública e cidadania) e publicitar o que se vai vendo e fazendo, tudo anunciando a par e passo num conceito de notícias ao minuto banalizador da palavra e da acção. E palavra banalizada é caminho para ser palavra vã. E inútil.
Por fim, e completando a tríade, o investimento.

Constantemente, regista-se notícias sobre investimentos nas cidades geradores de milhões de euros em negócio, criadores de emprego e transformadores de nacos de cidade. E, nunca como hoje, as cidades afirmam a sua capacidade em atrair investimento num afã competitivo que se traduz num permanente carrossel de anúncios de investimento quando ainda são intenções, quando muitos já cá estão.
E, porque talvez seja importante voltar a este tema proximamente, fixam-se apenas duas notas:
Se o investimento é importante, saber o que fazer com ele e saber rentabilizá-lo na tradução de maior conforto urbano é ainda mais importante;
É relevante que uma cidade seja competitiva (saberemos o que é ser competitivo?). Não será tanto (longe disso) que as cidades compitam entre si pelo investimento. A este nível, bem mais interessante seria se competissem pela diminuição das desigualdades
A visibilização e importância de uma cidade não se faz por ser a melhor (o que é preferível ser o melhor dos piores ou o pior dos melhores?) mas sim pelo significado e conforto das mesmas relativamente às pessoas. Como disse Luís Vassalo Rosa (citando livremente) a cidade é o espelho físico da sociedade que somos.

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