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A que sabe a escola inclusiva?

Os amigos de Mariana (1ª parte)

A que sabe a escola inclusiva?

Voz aos Escritores

2021-12-03 às 06h00

Fernanda Santos Fernanda Santos

Se um dia alguém
me mandasse definir,
era esta, e só esta,
a escola que iria incluir:
ouvem-se risos, gargalhadas e versos soltos
gritos de gaivotas
em voos livres
contas de somar, não de subtrair,
pensamentos simples e limpos.

Fernanda Santos

Assinala-se hoje, três de dezembro, o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.
A data tem como principal objetivo a motivação para uma maior compreensão dos assuntos relativos à deficiência. Junto, por isso, a minha voz a este propósito na mobilização para a defesa da dignidade, dos direitos e do bem-estar, para que se crie um mundo mais inclusivo e equitativo para as pessoas com deficiência, seja ela física ou mental, em seio escolar.
Ainda há bem pouco tempo, nós tínhamos uma espécie de duas escolas: a escola para a maior parte e a especial para a outra. As duas realidades existiam separadamente. Parece razoável dizer que a educação inclusiva aparece para acabar com essa separação e afirmar uma única escola. Deste modo, a educação especial afirma-se com o objetivo de permitir a convivência e a integração social dos alunos diferentes, favorecendo a diversidade.
E é na convivência diária com esta realidade que me pergunto: a que sabe uma escola inclusiva? A resposta vem-me através dos olhos das crianças que se cruzam comigo, na escola, todos os dias. É nessa troca de olhares e de afetos que a educação inclusiva acontece. É neste encontro que se descobre qual o papel da escola e quais são os pilares da educação numa escola inclusiva.
Fazendo uma revisão de literatura sobre o tema, podemos inferir que educação especial é responsável pelo apoio especializado ao aluno com algum tipo de deficiência ou com distúrbios de aprendiza- gem.
Por outro lado, a educação inclusiva é uma modalidade de ensino e aprendizagem na qual o processo educativo deve ser considerado como um processo social em que todos têm o direito à escolarização, independentemente da sua condição física ou mental. É uma educação voltada para a formação completa e livre de preconceitos que não só reconhece as diferenças como as valoriza.
Os desafios são constantes e, por vezes, nada fáceis de concretizar.
É preciso encontrar os ingredientes certos que permitem criar as condições para a cooperação entre alunos diversos, com necessidades distintas, com conhecimentos prévios diferentes e com motivações variadas.
E a chave parece estar em coisas tão simples como: no elogio do progresso, no exercício lúdico que não humilhe quem perde, no ambiente de aprendizagem que acolhe e inclui.
Uma escola inclusiva deve ser presente e oferecer um projeto educativo inteligente com os melhores ingredientes possíveis; deve ser futuro e apostar em ofertas educativas diversificadas e promover o culto de não desistência. O próprio desenvolvimento do currículo seja um ato de inclusão, pois os seus “atores” também são gente refugiada, que passou mal, que não fala a língua, que tem problemas económicos e sociais, etc.
Também o sabor amargo de um recreio escolar onde se assiste, por vezes, a situações de “bullying” deve fazer parte das estratégias de prevenção e combate.
O plano governamental 21/23 Escola + apresenta-se como ambicioso, espelhando, em boa verdade, a vontade de colocar em prática algumas destas inquietações. Importa agora apurar sabores, escrever receitas de sucesso e disseminá-las, de forma a ser possível a sua replicação.
Então, a que sabe a escola? – perguntei eu aos meus alunos.
“A escola”, diz o Nuno, de 10 anos, “sabe-me a letrinhas da canja”, “gosto muito de as juntar para ler e escrever”. Sendo o Nuno um aluno com algumas dificuldades de aprendizagem, é curiosa a manifesta vontade de aprender coisas novas, mesmo que, às vezes, as letras lhe dancem na frente dos olhos.
Já para o André, também com a mesma idade, a escola sabe a “pizza”, pois ela pode ser de sabores variados
e partilhada por todos os meninos, independentemente da sua cor, género, nacionalidade e condição física e intelectual. Por isso, a Leonor e a Maria dizem que a escola lhes sabe a morangos e a cerejas, pela cor e pelo sabor delicioso da escola onde dizem aprender coisas boas e úteis.
É parafraseando Aristóteles,
“nada é mais difícil do que tornar igual o que à partida é desigual”, que
me reafirmo numa escola inclusiva, que não gera ansiedade e não se centra exclusivamente no mérito académico, mas que gera uma aprendizagem vivencial do aluno e da sua diferença.

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