Correio do Minho

Braga, quarta-feira

- +

A reboque…

Quem me dera voltar a ser Criança

Voz às Escolas

2016-10-20 às 06h00

Luisa Rodrigues Luisa Rodrigues

O insucesso escolar de que tanto se tem falado nos últimos tempos, por força do estado a que chegamos, situação que alarmou os responsáveis deste “país à beira mar plantado”, não pelo ineditismo dos números mas porque quem realmente manda “puxou as orelhas” e exigiu medidas remediativas com a consequente prestação de contas, está no topo das preocupações de quem tarde acordou para uma realidade para a qual os trabalhadores da especialidade há muito vinham a alertar.
Efetivamente, e quem fez da profissão professor a sua opção de vida sabe bem do que falo, nada tem de inovador a conclusão a que miraculosamente se vai chegando de que as turmas têm um excessivo número de alunos; de que os programas, para além de excessivamente longos, são um dos maiores constrangimentos à implementação de práticas pedagógicas inovadoras e, consequentemente, apelativas para a esmagadora maioria dos alunos que temos; de que os programas precisam de ser limpos de conteúdos cuja importância não questionamos numa ótica de enriquecimento científico e cultural mais abrangente, mas que, direcionados para a faixa etária de uma escolaridade básica obrigatória, sobrecarregam e lesam as aprendizagens do essencial, garante de uma formação de base sustentável e promissora do sucesso esperado na preparação de uma geração que terá, incontestavelmente, que vencer numa Europa competitiva e em crise; de que os programas são uma manta de retalhos sem qualquer articulação, comprometendo o trabalho dos profissionais de educação e enfastiando/confundindo os alunos.
Confrontar-nos-ão, obviamente, com o estatuto de escolas com autonomia e com a liberdade de usarmos da prorrogativa da flexibilização dos currículos, de que, confesso, e apesar da minha longa experiência, ainda não entendi o real alcance mas, quanto aos programas, quem se atreve a cortar sob o fantasma da prestação de contas a que todos somos, igualmente, sujeitos, através de provas nacionais, correndo-se o risco de considerar supérfluo o que outros poderão entender como essencial?
Nos últimos dois anos tenho vindo a desafiar os professores do agrupamento que lidero a fazer a tal “limpeza” dos programas, medida defendida como a melhor estratégia para atingirmos resultados proporcionais ao investimento feito para a promoção do sucesso escolar dos alunos, sucesso esse que objetivamos supere os níveis já alcançados, mas tenho-me deparado com uma resistência que, no fundo, compreendo, porque é irrefutável que nem a autonomia nem a flexibilização dos currículos atenuarão o impacto dos rankings caso “erremos” na “limpeza”.
Quem sabe, agora que a tutela concluiu da necessidade de intervir nesta matéria não consigamos ver o problema resolvido?! Mas que o discurso não tenha o mesmo resultado daquele que fez correr tanta tinta sobre a redução do número de alunos por turma…transitou de um ano letivo para o outro… ponto.
Estranho país este que só acorda quando chamado à razão e, esquecendo-se de que a matéria-prima da escola é feita de gente e que, contrariamente a qualquer empresa, em que o que hoje é azul amanhã pode passar a verde, consoante as modas, essa gente ainda não está computadorizada, pelo que as mudanças só produzirão resultados quando, finalmente, tivermos um sistema educativo realista, currículos adequados, programas em que o essencial prevaleça, com a necessária articulação sequencial ao longo da escolaridade básica, assumindo-se o preço da mudança - a coabitação temporária de dois sistemas até à estabilização.
Por que será que temos que continuar a reboque de experiências de países com realidades tão díspares das nossas, ao invés de importarmos a base do sucesso que muitos deles atingem, e que passa por questões estruturais sem as quais não haverá a menor chance de os igualarmos? Como pode alguém convencer-se de que o sucesso escolar é um ato isolado de condicionantes sociais, económicas e, acima de tudo, independente da existência de uma verdadeira política educativa e de reconhecimento do estatuto da escola enquanto garante de uma sociedade apta a enfrentar os desafios a que não podemos furtar-nos?
Apesar de tudo, acredito que ainda temos profissionais capazes de alterar o rumo que leva a educação, embora para tal tenhamos que esquecer ideologias e dar voz a quem “sabe da poda” e que, sem ânsia de qualquer protagonismo, aceite colocar o seu saber ao serviço da Escola, ouvindo-a, sem receio de pressões.
Assim eles queiram arriscar envolver-se num processo que lhes valerá, segundo a história, o pagamento de um preço bem alto.

Deixa o teu comentário

Últimas Voz às Escolas

29 Junho 2020

Ikigai

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.

Bem-vindo ao Correio do Minho
Permita anúncios no nosso website

Parece que está a utilizar um bloqueador de anúncios.
Utilizamos a publicidade para ajudar a financiar o nosso website.

Permitir anúncios na Antena Minho