Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Restauração da Independência

Um ciclo que se abre

Escreve quem sabe

2010-12-04 às 06h00

Fernando Viana

No momento em que escrevo esta crónica, estão decorridos 370 anos sobre a data da restauração da independência em Portugal.
Em 1 de Dezembro de 1640, os 40 Conjurados puseram fim aos 60 anos de domínio filipino e num golpe palaciano afastaram os apoiantes de Filipe III (IV de Espanha), nomeadamente a Duque de Mântua e Miguel de Vasconcelos (que foi defenestrado) e aclamaram o Duque de Bragança, D. João IV como novo rei de Portugal.

É interessante pensar que uma grande parte da insatisfação dos portugueses residia na má administração do governo espanhol. Em 6 de Julho de 1628 era expedida a carta régia que, sem o voto das Cortes (necessário para a criação de novos tributos), mandou levantar por meio de empréstimo forçado, as quantias necessárias para a defesa de todos os lugares do nosso reino ameaçadas por forças estrangeiras. O povo manifestou o seu descontentamento, assim como o clero, também abrangido pela colecta. Era a normal reacção, após muitos anos de vexames e de tirania tributária.

É também interessante notar que hoje, como em 1640, encontramo-nos dependentes. Em 1640 a dependência era contudo sobretudo política, sendo hoje mais de cariz económica. O nosso nível de endividamento atingiu tal dimensão que nos encontramos absolutamente dependentes dos credores estrangeiros.

Durante os últimos anos o nosso modelo de desenvolvimento económico baseou-se no consumo privado e em investimento público dirigido para bens não transaccionáveis (pontes, auto-estradas, mas também estádios, auditórios, etc). O nosso tecido produtivo foi-se deteriorando progressivamente. Desinvestimos fortemente de um modo geral no sector primário, diminuindo produções e desincentivando os jovens de trabalhar numa área que de forma preconceituosa se afirma ser pouco rentável e atractiva em termos de futuro. Importamos assim cerca de 70% do que comemos. Agora que as cotações dos cereais e de muitos outros produtos alimentares não cessam de aumentar, descobre-se que este sector representa afinal um filão.

No sector secundário não estamos muito melhor. Com a globalização da economia, muitas indústrias deslocalizaram-se para regiões e países onde os custos de produção são muito baixos. A China transformou-se na fábrica do mundo, com uma balança comercial que regista um superavit fantástico, enquanto que a nossa permanece cronicamente negativa. Assistimos nos últimos anos ao encerramento de empresas que faliram por não aguentar a concorrência com as congéneres estrangeiras ou por má gestão, enquanto que outras, afectas a empresas transnacionais deslocalizaram-se para o Leste da Europa, para a África do Norte ou para a Ásia.

Também aqui não temos sabido contrariar esta tendência. Só agora, com a receita fiscal a ultrapassar o máximo suportável e o crescimento do desemprego e da pobreza, os responsáveis têm dado sinais de mostrar alguma preocupação, sem contudo atacar o problema nas suas causas essenciais.

Precisamos urgentemente de restaurar a nossa independência económica.
Quanto tempo vai ser necessário e como o vamos conseguir são as questões que urge colocar. Agora uma coisa é certa, vão ser precisos mais do que 40 para esconjurar a crise.

Deixa o teu comentário

Últimas Escreve quem sabe

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.