Correio do Minho

Braga, terça-feira

'A revelação'

Tancos: falta saber quase tudo

Conta o Leitor

2013-07-01 às 06h00

Escritor

Ana Leonor Rebelo da Silva Godinho

Decorre o ano de 2020 e o meu nome é Desilusão. A sociedade e o mundo, em geral, tornaram-se obsoletos graças aos sucessivos governos de seres híbridos sem consciência. Em vários pontos do planeta vinga a impunidade, a desumanidade e a guerra.

Decidi partir, rumo ao estado de Morelos no México, para vivenciar de perto o culto da fé e da oração perpetuada pelo seu povo. Assim que cheguei, deparei-me com um clima místico apostado em fazer acreditar que uma força superior a todos nós viria para nos salvar. Neste ponto sou muito cética e crítica, nunca tive fé nos homens ou em deuses.

Vim até aqui portadora daquilo que me define enquanto ser desde que tomei consciência de mim mesma, a ideia de que fui colocada nesta esfera azul a que chamam planeta Terra e lar com a sensação de ser oriunda de outro lugar. Caminhei e caminho sem saber o motivo que me prende aqui e mesmo rodeada por humanos, na verdade, sinto-me sozinha, porque em mim habita uma sensação de não pertença constante.

E, sem contar, pude comprovar esta teoria antes do meu pai biológico morrer. Quem se encontra entre a vida e a morte consegue ver a verdadeira essência do ser e ele viu-me, não como a sua filha, mas na pele de outro ser. Aos seus olhos eu era um anjo. A tentativa de ter sido plantada aqui sem memória da minha verdadeira existência, não foi o suficiente para destruir aquilo que nutro em relação à minha própria existência e assim, sem surpresa, a vida que me foi imposta revelou ser uma mentira colada.

Um dia cheguei a um pueblo rodeado por colinas. Estava em Tlayacapan que, na linguística uto-asteca, significa “sobre a extremidade da terra”. Como estava cansada, refugiei-me no interior de uma capela soturna e vazia. No seu interior havia várias imagens sagradas e um silêncio tão denso que até me custava a respirar. Sentei-me num banco de madeira, esculpido pelas mãos calejadas das gentes da aldeia e fiquei ali sem pensamentos e de olhos fechados.

Minutos depois houve uma vontade que se fez ouvir, quando me preparava para abalar dali, ansiava acabar com o sofrimento que sentia neste mundo pondo termo à vida. Logo após, a expressão do meu desejo, algo suave e leve fez-me cócegas ao cair sobre os meus braços e rosto.

Comecei a procurar a origem desta sensação e avistei uma nuvem de penas brancas caídas do céu. Não sabia de onde vinha. Percorri a capela, olhando para todos os lados, e num recanto muito sombrio estava uma imagem em tamanho real do Arcanjo Gabriel, rodeada por um monte de penas brancas. Não sei por que razão, mas avancei e coloquei a minha mão sobre a estátua fria entregue à escuridão.

Senti um líquido quente a pingar para o meu rosto, levei de imediato a mão à face para limpar e ver o que era. Acendi uma das inúmeras velas que ali se encontravam apagadas e assustei-me, parecia ser sangue. Incidi o foco tremeluzente da vela sobre a imagem do arcanjo e recuei incrédula para trás, ao ver que dos seus olhos caíam lágrimas de sangue. Sentia-me tonta, o meu coração disparou e deixei cair a vela no chão. Nisto alguém pôs uma mão gelada sobre as minhas costas e gritei.

Ainda arrepiada, voltei-me temerária e vi uma senhora de vestes negras, muito velhinha e cega de uma vista.
- Arcanjo! Vieste para nos salvar! - Disse a velhinha.
- Não estou a percebê-la, senhora! Eu não sei o que sou.
- Tu pertences a dois mundos, ao Céu e à Terra. Todo o teu ser é composto por células de vários lugares, logo tanto estás aqui como em toda a parte.
- Continuo sem entender, senhora!
- No momento certo, irás perceber tudo.
- Por que razão chora o arcanjo?
- Isso foi uma mensagem do Céu. Gabriel chora, porque tu és o legado de Uriel na Terra, aquele que veio para nos julgar.

A partir desta revelação rumei até aos confins da Terra, para um lugar ausente de civilização onde senti uma paz de espírito inexplicável. Adaptei-me sem problemas, vivendo com tudo aquilo que a mãe-natureza dá, como um nómada por opção. Nunca me sentia sozinha. À noite o céu que me cobria contava-me histórias fantásticas sobre a origem de tudo e o tempo passava sem que eu protagonizasse qualquer contagem.

Mas, um dia, achei que o mesmo já ia muito longo e então aproximei-me de um lago cuja água cristalina parecia um espelho capaz de captar a alma de qualquer ser. E, pela primeira vez, vi que não envelhecera um ano que fosse desde a minha vinda. Nesse instante, os meus ouvidos captaram vozes humanas.

Fui indagar. Um grupo de homens armados tinha duas pessoas muito maltratadas como reféns, e isso despoletou a minha ira. Pensei para mim mesma que não interessava ao mundo quem pratica o mal e então eles tombaram no chão sem vida. Libertei os reféns, mas como estavam em tão mau estado e sem sentido de orientação ficaram aos meus cuidados durante uns dias. Perguntei-lhes como estava o mundo atualmente. Contaram-me histórias horrendas da humanidade e nenhuma mudança significativa, antes pelo contrário, o inferno parecia imperar sem refreio. A revelação tornara-se real e senti que tinha de dar uso ao meu dom punindo os ímpios. O meu nome é Julgamento.

O meu pensamento agiu de imediato a grande escala, estendido a todos os que cometeram os atos mais vis e desumanos, reduzindo-os a pó. Erradiquei tudo quanto causara sofrimento; poder, dinheiro, armas, vícios e maus sentimentos. No fim pedi perdão a todos os que partiram vítimas do mal que contaminou a Terra, devido ao despertar tardio do meu verdadeiro ser, pois em mim estava o poder de conceder à civilização humana uma nova oportunidade.

Cada povo voltou a habitar o seu território, e elegi dentro deles o mais sapiente e puro para assegurar os princípios da fundação de uma nova sociedade, onde cada um tinha o seu papel bem definido, assegurando o seu funcionamento em harmonia e igualdade. Tudo o que se cultivava era o bem, com vista a atingir a perfeição.
Continuei a minha missão como um observador deslocando-me de lugar em lugar, zelando pela manutenção desta Terra redimida e purificada onde o meu nome virou Esperança.

Deixa o teu comentário

Últimas Conta o Leitor

31 Agosto 2018

Ingratidão

30 Agosto 2018

Humanum Amare Est

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.