Correio do Minho

Braga, sábado

A riqueza de poucos beneficia todos nós?

Menina

Ideias

2018-10-06 às 06h00

António Ferraz

A realidade mostra que 1% da população mundial possui na actualidade 45% da riqueza total, um facto absolutamente injusto, inaceitável e insustentável. Autores de prestígio mundial apontam que com o “fim” da era do humanismo, tem-se vindo a registar cenários conflituosos de vários matizes: crescimento das desigualdades à escala mundial, conflitos sociais na forma de racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia, homofobia, etc.
O populismo de extrema-direita tem vindo a ganhar terreno e com ele toda uma difamação de virtudes como o cuidado, a generosidade, o acreditar que não se pode atingir os fins sem olhar aos meios. Em consequência, será de se esperar novas tentações separatistas, construção de mais muros, maior militarização de fronteiras, formas mortais de policiamento, guerras mais desniveladas, alianças destroçadas e incontáveis divisões internas, englobando mesmo as democracias existentes.

Pese embora, a desigualdade mundial entre economias nacionais, contabilizada em termos de rendimento per capita médio diminuir, a verdade é que o fosso entre os mais ricos globais e os mais pobres globais não tem parado de crescer, e os diferenciais de rendimento dentro dos países também tendem a aumentar. Assim, constatamos que a desigualdade, fenómeno multidimensional e sistémico, tem vindo a agravar-se na maioria dos países e alguns estudos apontam para os efeitos nefastos da crescente polarização social e económica das últimas três décadas.
Por sua vez, a crise económica e financeira global desde 2008 resultado da desregulamentação das economias de mercado teve um impacto altamente negativo na desigualdade e pobreza à escala global, com as suas políticas de austeridade excessiva, níveis elevados de desemprego, aumento da precarização laboral, alterações das leis do trabalho e redução de alguns mecanismos de segurança social. Por exemplo, no Brasil, os 10% mais ricos possuem 55% da riqueza nacional. Nos Estados Unidos esse percentual é de 47% e na França de 33%!

Em Portugal, a parcela de riqueza produzida afecta ao factor trabalho foi de apenas 34,2%, sendo que as famílias mais ricas ganhavam em média quase dez vezes do que ganhavam as mais pobres (INE, 2016).
Por décadas e décadas as correntes de pensamento de índole liberal tem afirmado que o mercado possuía mecanismos auto-reguladores, corrigindo sem intervenções externas as disparidades de rendimento entre pobres e ricos, porém, as pesquisas e estatísticas atestam o contrário. Torna-se, assim, necessário repensar todo o modelo económico e social vigente à escala mundial. Zygmunt Bauman, sociólogo polaco e professor na Universidade de Leeds (Reino Unido) nos últimos vinte anos de sua vida (1925 – 2017) na sua obra “A Riqueza de poucos beneficia todos nós?” (Zahar, 2015) aborda de forma interessante tal tema. Para ele as “pessoas que são ricas estão ficando mais ricas apenas porque são ricas. Pessoas que são pobres estão ficando mais pobres apenas porque já são pobres. Afirma também que a desigualdade continua a aprofundar-se pela acção de sua própria lógica e de seu momento, ela não precisa de nenhum estímulo externo – nenhum incentivo, pressão ou choque. A desigualdade económica e social parece estar mais perto do que nunca de se transformar no primeiro motor perpétuo da história – no qual os seres humanos, depois de inumeráveis tentativas fracassadas, afinal teriam conseguido inventar e pôr em movimento”.

Dentre as medidas que propõe visando alterar tal cenário está o investimento em educação, mormente a infantil por ser a mais relevante socialmente a longo prazo. Porém, para que isso seja alcançado é premente prevenir a violência e oferecer com urgência melhores oportunidades de trabalho, rendimentos condignos e qualidade de vida em áreas vulneráveis. Quer dizer, para se ultrapassar a referida “armadilha da desigualdade” é indispensável fugir à lógica do assistencialismo e dar muita atenção à eficiência das acções e uma via com potencialidades para isso é através do empreendedorismo social. Ora, falhas da regulação dos mercados pelo Estado, nomeadamente nas relações intersectoriais foram exactamente uma das principais causas da crise desde 2008 e que afectaram sobretudo o factor trabalho e mais ainda as camadas populacionais mais carenciadas.

Em suma, face a tendência geral de agravamento das desigualdades e pobreza a nível mundial, o Estado deverá ter um papel relevante a desempenhar:
(1) simplificando e tornando mais progressivo o sistema tributário (quem ganha mais, deve pagar proporcionalmente mais);
(2) fortalecendo o seu papel de regulação, fiscalização e de capacidades para atenuar as desigualdades. Para isso, contudo, a acção pública deve sempre pautar-se pela máxima transparência.

Deixa o teu comentário

Últimas Ideias

18 Julho 2019

Jacques Delors

Usamos cookies para melhorar a experiência de navegação no nosso website. Ao continuar está a aceitar a política de cookies.

Registe-se ou faça login

Com a sessão iniciada poderá fazer download do jornal e poderá escolher a frequência com que recebe a nossa newsletter.




A 1ª página é sua personalize-a

Escolha as categorias que farão parte da sua página inicial.

Continuará a ver as manchetes com maior destaque.