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A saga que dava um filme

A resolução de conflitos de consumo através da Internet (RLL)

A saga que dava um filme

Ideias

2021-04-18 às 06h00

Joaquim da Silva Gomes Joaquim da Silva Gomes

Muitos já terão ouvido falar na revolta de escravos que ocor-reu a bordo do veleiro “La Amistad” que, em 1839, navegava no Oceano Atlântico sob a bandeira da Espanha.
O navio, que servia de transporte de tráfico ilegal de negros, foi palco de uma revolta de 53 escravos que tomaram conta da embarcação matando a tripulação, com exceção de dois navegadores, necessários à pilotagem do navio.
Este acontecimento inspirou o filme “Amistad”, que estreou em 1997. O seu realizador, Steven Spielberg, destacou e descreveu todo o processo de luta desencadeado pelos escravos africanos para obter a liberdade.
Os acontecimentos verificados no veleiro “La Amistad” fazem lembrar outro, mais recente, que ocorreu em 1901, numa região de Moçambique, território então pertencente a Portugal, e que, ultimamente, tem sido fustigado pelos ataques de elementos do Estado Islâmico contra as populações indefesas da região de Cabo Delgado.
Tudo aconteceu nos primeiros dias de 1901 quando o vapor alemão «Herzog» transportava 136 trabalhadores africanos, a maioria da Somália, para trabalharem nas minas de carvão que então existiam na Rodésia (atual Zimbábue).

Ao passarem na costa da Beira, a segunda maior cidade de Moçambique e capital da Província de Sofala, esses trabalhadores foram informados pelo fogueiro do vapor que teriam que trabalhar nas minas da Rodésia com grilhetas, ou seja, umas argolas de ferro presas às suas pernas. Isto já no século XX!
Apanhados de surpresa com este anúncio, estupefactos e assustados, de imediato gerou-se uma revolta entre os 136 trabalhadores escravos que atingiu propor- ções de enorme violência. A primeira grande reação destes escravos foi a recusa em desembarcarem, facto que motivou um pedido de ajuda às autoridades portuguesas, efetuado pelos responsáveis do vapor alemão.
No entanto, os escassos recursos humanos que Portugal tinha em Moçambique limitaram a ação das autoridades nacionais. Neste sentido, apenas dois agentes lusos foram ao interior do navio verificar o que se passava, mas logo foram humilhados e maltratados pelos escravos revoltosos.

A solução encontrada foi enviarem, posteriormente, mais elementos da polícia e ainda uma força de soldados portugueses que se encontravam em Moçambique. Em consequência, gerou-se um grande confronto entre os escravos e os portugueses, tendo daí resultado um morto e 26 feridos. Muitos escravos, desesperados, acabaram por se lançar à água, vivendo momentos de grande amargura e sofrimento. Por outro lado, as forças militares portuguesas sofreram, como consequências deste incidente, ferimentos em nove soldados.
A escravatura em África, especialmente no domínio português, era uma realidade com a qual as autoridades nacionais tinham de lidar permanentemente. Por exemplo, em junho desse ano, também na costa de Moçambique, os polícias portugueses surpreenderam 16 negociadores de escravos que foram combatidos pelas canhoeiras “Chaimite” e “Batista de Andrade”, tendo esses engajadores respondido com tiros!
Convém referir que Portugal foi um dos países que mais influência teve no comércio de escravos. Foi inclusive o primeiro estado do mundo a fazer comércio global de escravos vindos de África, calculando-se que, entre 1450 e 1900, fossem responsáveis pelo tráfico de cerca de 11 milhões de escravos!

Houve, contudo, momentos em que o nosso país tudo fez para eliminar este comércio de seres humanos, a começar pelo decreto de Marquês de Pombal, publicado em 1761, que determinava a abolição do comércio de escravos. Apesar disso, o comércio de pessoas continuou a desenvolver-se no império português.
Assim, no início do século XX, o tráfico de escravos que ocorria na costa moçambicana preocupava as autoridades portuguesas, de tal forma que desenvolveram esforços no sentido de patrulhar esta zona da forma mais eficaz possível. Neste contexto, o governador geral de Moçambique solicitava perseverantemente às autoridades de Lisboa que enviassem forças militares para ajudar no combate a este flagelo.

As autoridades portuguesas determinaram então que a vigilância em Moçambique teria três locais centrais:
- Em Inhaca, onde se encontrava um destacamento de Infantaria 8;
- Em Ressano Garcia, onde se encontrava uma companhia de caçadores;
- Em Maticuana, onde se encontrava um destacamento de cavalaria.

Apesar do esforço das autoridades portuguesas no sentido de melhor patrulharem as nossas colónias, os soldados nacionais sofriam muito com as condições que encontravam em Moçambique, tendo sido obrigados muitos deles a regressar a Portugal por serem incompatíveis com o clima e com as doenças que por lá proliferavam.
Quando pensamos que nos dias de hoje a escravatura já não existe, basta recordar que no nosso país, entre 2014 e 2015, foram sinalizados 193 presumíveis escravos. E no ano de 2016 existiam, em todo o mundo, cerca de 46 milhões de pessoas em regime de escravidão!
A emocionante saga dos escravos que se revoltaram em Moçambique, já em pleno século XX, dava um bom filme, à semelhança do que nos conta o “Amistad”.

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