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A Semana da Paixão que hoje termina em Ressurreição

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A Semana da Paixão que hoje termina em Ressurreição

Ideias

2019-04-21 às 06h00

Artur Coimbra Artur Coimbra

1. Simbolicamente e na prática, acabamos de sair da Semana da Paixão, uma semana bem mais dolorosa, trágica e penosa do que seria suposto, pelo mero rolar do calendário a anteceder a Páscoa.
A semana começou logo com o brutal incêndio da Catedral de Notre-Dame, mais de 800 anos de história, uma perda incomensurável para a França, de que era um símbolo incontornável, mas também para a cultura europeia e para a Humanidade, porque o património cultural é pertença de todos os cidadãos do mundo, esteja onde estiver. Perante aquele emblema colectivo em chamas, a França emocionou-se até às lágrimas, à raiva e à revolta. Obviamente, Emmanuel Macron aproveitou a situação para tentar capitalizar a desgraça em seu favor e dos seus propósitos políticos, ao visar “unir a nação” numa hora tão greve. Os “coletes amarelos” é que não foram na cantiga e prometem voltar às ruas para continuar os protestos.
Todo o mundo sentiu e lamentou tão infausto acontecimento, que empobreceu a cultura e a história do Ocidente. Macron apressou-se a prometer a reconstrução da catedral gótica em cinco anos, o que alguns consideram demasiado temerário. Obviamente, mesmo que fique bem, nunca será a mesma História!
Duas notas ainda sobre esta matéria. A primeira para referir que Putin se disponibilizou a ajudar a reconstrução do monumento. Um sinal de que a Rússia continua no seu afã de se infiltrar pelo mundo fora e sobretudo no Ocidente para o tornar refém. A ambição expansionista do novo czar não tem limites, e insinua-se nos momentos aparentemente mais inocentes. O lobo na pele do cordeiro.
A segunda para reconhecer que já há mais de 1000 milhões de euros oferecidos por milionários do luxo, da moda e do petróleo para restaurar a catedral. As grandes marcas (grupos L’Oreal, Louis Vuitton, Dior, Bvlgari, Gucci, a Apple, a Disney e a Total, bem como alguns bancos) apressaram-se a anunciar grossos donativos. Certamente não o fazem por questões patrimoniais, culturais ou religiosas mas sobretudo por motivos de prestígio e de valor económico. Aliás, há sectores críticos em França a referir que, “se podem dar dezenas de milhões para reconstruir Notre-Dame, parem de nos dizer que não há dinheiro para atender às necessidades sociais”, como é o caso da CGT. Lá como cá: não há dinheiro para os trabalhadores mas há para atalhar aos desmandos dos banqueiros.
Obviamente, nunca ninguém viu tais milionários a apoiarem, por exemplo, a reconstrução de Moçambique, no que seria uma extraordinária acção de cariz humanitário, mas como é um país pobre não dá “estilo” a ninguém. Como também referiu a jovem ambientalista sueca Greta Thunberg, ninguém se preocupa em doar verbas tão avultadas para defender o futuro do Planeta e reduzir as alterações climáticas.
Tudo é feito, dizemos nós, em nome da propaganda, do marketing, dos ganhos patrimoniais e morais. Como se diz por cá, “não há almoços grátis”…
2. A partir de segunda-feira e durante três longos dias, um sindicato recente, representativo de 800 trabalhadores, acabou por colocar o país em alerta vermelho, com todas as consequências que advieram da greve decretada pelos profissionais do transporte de matérias perigosas. O país quase parou, o racionamento esteve às portas das gasolineiras, não fora a capacidade negocial do ministro Pedro Nuno Santos e a vontade de entendimento dos trabalhadores e da ANTRAM.
Demonstrou-se claramente, em apenas 36 horas, que não são os professores, nem os enfermeiros, nem os médicos, nem os polícias, nem os juízes, nem os estivadores, quem pára o país, quem coloca os portugueses em pânico, quem semeia o caos. São sim os motoristas de transporte de matérias perigosas, neste caso, os combustíveis.
Ganham pouco, são trabalhadores invisíveis, não aparecem em grandes parangonas nos jornais, mas sem o seu esforço diário o país paralisa e os portugueses ficam alarmados, como aconteceu esta semana. Os camionistas já demonstraram (agora, como tinha sucedido em Junho de 2008) que são o nervo da economia e da sociedade.
Esta turbulência veio trazer à tona um novo sindicalismo, como já tinha sucedido com os professores (STOP), os estivadores e os enfermeiros. Sindicatos de constituição recente, mais radicais e agressivos nos protestos, que fogem ao modelo tradicional e ao controlo das centrais sindicais
A oposição e em especial o CDS, que se vem a corporizar um radicalismo quase extremista, aproveitou para cavalgar o descontentamento pela crise, acusando o Governo do que devia e do que não devia. Não deixa de ser curioso, neste caso, como em outros, a posição dos pseudo-liberais que existem em Portugal, normalmente conotados com a direita. Passam os dias a afirmar que o Governo não se deve meter na economia, que as relações entre patronato e sindicatos apenas a eles dizem respeito.
Numa situação destas, apesar da sua gravidade, em que o que esteve em causa foram claramente questões laborais, de reivindicações salariais e de valorização da carreira dos motoristas de matérias perigosas, afinal o princípio foi mandado às malvas. O liberalismo não chega a tanto. As coisas não correram bem e aqui del Rei que o Governo deveria ter intervindo mais cedo no conflito, para o resolver, como se os trabalhadores fossem funcionários públicos… Dá vontade de rir às gargalhadas…
O Estado deve ser mínimo, quando as coisas correm bem e quando se quer que o capital encha os bolsos. Quando dão para o torto, o Estado “deve cumprir a sua missão”, de Estado máximo… Afinal, que é que os pseudo-liberais querem mesmo?
3. Infelizmente, a meio da semana, tivemos a tragédia da Madeira, um autocarro em despiste, com o catastrófico e chocante saldo de 29 turistas alemães mortos e 28 feridos. O triste culminar de uma semana negra, a Semana da Paixão. Sem palavras para tecer outras considerações.
4. Felizmente que hoje se celebra a Páscoa da Ressurreição, a festa da família, o reviver das tradições pelo país fora, os coloridos compassos que saem por caminhos, estradas e ruas, cada vez mais protagonizados por leigos, numa Primavera de ressurgimento e renovo da alegria. Um dia muito especial para os portugueses, sejam ou não crentes, porque há símbolos e práticas que mexem bem fundo de nós, em cada ano que passa, porque fazem parte da nossa memória colectiva, do nosso imaginário.

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