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A Semana Santa em Braga: ‘um motor de busca’ para as inquietações do Tempo

Viagem a Viena

A Semana Santa em Braga: ‘um motor de busca’ para as inquietações do Tempo

Ideias

2019-04-17 às 06h00

José Hermínio Machado José Hermínio Machado

Nos dias 11 e 12 de Abril tive a feliz oportunidade de frequentar o seminário Internacional sobre as devoções de fronteira que a casa Museu de Monção organizou e para o qual contou com reputados especialistas de Espanha e de Portugal. De Espanha vieram historiadores como Ofélia Rey Castelao, da U. Santiago de Compostela, Eliseo Serrano Martin, da U. de Saragoça, David González Cruz, da U. de Huelva; de Portugal estiveram Viriato Capela, Marta Lobo, Álvaro Campelo, Elisa Lessa e Ernesto Português. O seminário versou a temática dos santos, digamos assim: como se fixaram e se continuam a definir, como se constroem e desenvolvem as devoções e como se explicam aquelas que são comuns aos povos fronteiriços, como é que se diferenciam ao longo dos tempos, que relações se mobilizam para as explicar e justificar as funções que cumprem na ordem pessoal, social e de Estado. O assunto foi abordado de vários pontos de vista, com muita diversidade de achados, curiosidades, relações, contactos e contaminações. Fiquei muito curioso das polémicas que o culto de Santiago envolve e das perspectivas que debatem a compreensão das peregrinações ou dos caminhos; igualmente fiquei satisfeito com as ocorrências de devocionários fronteiriços, tenham eles formas expansivas ou sejam discretíssimos; mergulhei um pouco mais nas práticas musicais e performativas que envolvem as devoções, quer nos espaços exteriores das romarias quer no interior dos conventos ou das igrejas; enfim, desde uma abordagem das devoções explicitadas pelos párocos que responderam ao inquérito que originou as Memórias Paroquiais, desde os acervos e documentos patrimoniais das misericórdias, desde os filmes de reportagem sobre romarias, numa perspectiva de documentação ou numa perspectiva de compreensão antropológica, o imaginário dos santos constitui um mundo a descobrir. Sob o ponto de vista das tradições ou do acumulado cultural que se mobiliza para as compreender, dei comigo a pensar na realidade das ideologias ou representações que justificam e dão suporte verbal, artístico, patrimonial, musical, cenográfico, ao devocionário dos povos. Seja mobilizada a fé, seja o poder político, seja o medo da finitude, seja o medo dos cataclismos ou, esse novo medo que agora está em curso, o das alterações climáticas; seja mobilizada a razão para cimentar o social, seja argumentado o costume, seja o património edificado, seja o espectáculo montado e em uso; seja a vontade individual, seja a lenda ou o mito – fiquemos por aqui, o certo é que as devoções existem, tem calendário de expressão e de visibilidade, têm ritos e cerimonais, têm espectacularidade, têm orçamentos, têm roteiros, caminhos, estradas, viagens. Vejamos o caso da Semana Santa em Braga e de Baga. Esta nossa cidade consagrou-se como palco, espaço, território de representação de cerimónias que expressam o seu devocionário próprio nesta altura do calendário e do ciclo anual. Temos aqui a oportunidade de verificar as várias dimensões desta representação viva e vivida: as procissões, com a participação das Misericórdias e das autoridades eclesiásticas e civis, as cerimónias litúrgicas nas várias igrejas, os calvários de rua, as vias-sacras encenadas, os sermões e prédicas, o lausperene, o compasso, os concertos e as exposições, os costumes gastronómicos, os comportamentos sociais. Braga tem a Semana Santa como corolário do devocionário acumulado, mobiliza-se como território de presença e de chegada com uma visibilidade e uma sonoridade específicas. Para quem a seguir atentamente, também já com tempo de observação ou vivência acumulados, poderá descobrir Braga como «motor de busca» que nos vai orientando na procura de respostas aos porquês de fazermos a Semana Santa como a fazemos.

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