Correio do Minho

Braga, terça-feira

A sombra da vida

O seu a seu dono!

Conta o Leitor

2018-07-23 às 06h00

Escritor

Autor: João Gaspar Oliveira

Caminhava ao entardecer e a sua sombra projetava-se na sua frente. Por mais que alterasse a trajetória ela ia sempre na vanguarda. Parou. Caminhou em sentido contrário mas a sombra continuava sempre a persegui-lo. Sentou-se e a sombra desapareceu.
- Ah – exclamou – Cansei-a!
Levantou-se mas hesitou se devia prosseguir ou retroceder. Mas não podia ficar ali sentado para sempre.
Desatou a correr de olhos fechados durante breves momentos mas, a medo, abriu-os. Não havia sinais da sombra.
-Ufa, que alívio!
Olhou em redor e nada.
Voltou a sentar-se. Transpirava ofegante mas tinha valido a pena.
Alguns instantes depois ouviu passos a aproximarem-se. Olhou em redor e lá estava ela!
De um pulo levantou-se boquiaberto. Cerrou os punhos e os seus batimentos cardíacos aumentaram. Mas um homem é um homem e ele ia para a luta. Nem que fosse a última! Seus olhos fixavam-na em tom de desafio. Não ia agora virar a cara nem fugir. Tinha de a encarar olhos nos olhos ou jamais se poderia voltar a ver ao espelho.
Ela caminhava silenciosamente, aproximando-se como um fantasma. Começou por lhe tocar os pés e foi subindo lentamente, mansamente, pelas pernas, pelo umbigo, passou ao de leve pelo peito e cada vez mais devagar, até o tocar nos olhos. Tensamente fixaram-se em tom de desafio.
Tudo à volta tinha deixado de existir: nem cantos de pássaros, nem murmúrios das ondas contra as rochas, nem a voz de alguém. Nada, absolutamente nada, bulia.
Os seus olhos, cegos por uma estranha raiva, invadiram-lhe o ser. A sombra aproximou-se ainda mais e quase o tocou. Ele nem pestanejava. Estava hirto, mudo e quedo, quase a explodir, qual animal feroz encurralado. Ela avançou ainda mais e beijou-o ao de leve na face. Ele recuou mas ela sorriu-lhe de mansinho. Sentindo-se provocado ele não se ficou, apertou-a entre os seus fortes braços e beijou-a. Ela tentou escapar mas não conseguiu. Ele continuou a beijá-la e ela desta vez já não quis escapar, devolveu-lhe, primeiro a medo, depois sofregamente, os beijos. Ficaram loucos um pelo outro e à sua volta já nada bulia e até o sol, de tão envergonhado, se apagou lentamente, deixando a noite cair sobre eles. Sob o manto da escuridão ele foi-a acariciando e os dois amaram-se tanto como se fosse o último dia das suas vidas. Ela sentiu em si o amor, por isso exalava um indescritível sorriso de felicidade. Após muito tempo a acalmia voltou e os dois, ainda ofegantes, continuavam abraçados e sorriam. Sorriam como quem toca a primeira luz da manhã ou a gota de orvalho beija as ervas do prado nas manhãs da primavera. Ainda unidos pela paixão não repararam que o tempo tinha parado e que até o sol se recusava a nascer. Aos poucos ela levantou-se e, sorrindo, foi-lhe retirando as mãos do seu corpo e recuou afastando-se. Ele suplicava-lhe que ficasse, enviando-lhes provocantes sorrisos de braços esticados, mas em vão. Ela partiu. Ele acordou. Do sonho…já nada restava.
Ele abriu desmesuradamente os olhos e olhou em volta mas da sua sombra, nada! Caminhou em várias direcções e nada. Recuou, avançou e nada. Espreitou nas esquinas, nas ladeiras e precipícios e nada. Correu, gritou, esbracejou mas da sombra, nada!
O desespero tomou conta dele. Tinha perdido a sombra de quem tinha começado a gostar. Afinal ela era a sua companheira dos bons e maus momentos.
Sentou-se numa pedra do tempo mas da sombra, nada.
Olhou para o céu e já não havia nem luar nem estrelas a brilhar. Era uma escuridão absoluta!
Ele permanece sentado. À espera que a sua sombra volte…

II
No dia seguinte, à mesma hora ele levantou-se e começou a caminhar. Ninguém na estrada, ninguém na pegada. Apenas ele e mais ninguém.
O sol já estava a dormitar no horizonte, em jeito de despedida, mas ela não aparecia. À sua volta só solidão e o canto das corujas. Aqui e ali uma rã coaxava no lago e até o velho burro que pastava no seco prado se preparava para dormir no chão.
Ele bem olhava, alterava percursos mas aquela imagem translúcida não se projectava à sua volta. Que saudade sentia daqueles abraços, daquele perfume com sabor a hortelã, daquela sensação fresca e terna do encontro das faces e aqueles olhos, ai aqueles olhos castanhos tão doces e meigos a penetrá-lo. Mas o sorriso, onde ele se perdera na noite anterior, martirizava-o.
Parou. Sentou-se novamente numa pedra. Olhou em redor e nada bulia, nem o silêncio da brisa nem as folhas das árvores mexiam, nada.
Ele voltou a levantar-se e gritou.
Sombraaaaaaaaaaaaaaaaa

III
E de repente ouviu-se um leve ruído nas folhas secas do caminho. Pensou tratar-se de algum pequeno animal e nem olhou.
- Pst! Pst! …
Ele voltou-se paulatinamente e arregalou os olhos: ela estava ali a sorrir-lhe. A provocá-lo… a enlouquecê-lo…
Ele hesitou. Olhou em redor e caminhou inicialmente mas logo desatou a correr na sua direção. Ela abriu-lhe os braços e prenderam-se um ao outro tempo sem fim. Ele não queria perdê-la, o que tornou aquele abraço longo e forte. Mas ela não se queixou. Deitou a cabeça no seu ombro e ali ficou terna e eternamente agarrada a ele. E ele voltou a sorrir. Sorriu como só os homens que gostam sabem sorrir.
E depois caminharam pelo prado verde, em direção a lado nenhum. Que importava para onde iam? O que importava era estarem juntos. Olhavam-se ritmadamente e sorriam em silêncio. As palavras eram mudas, apenas aquele silêncio que os dois entendiam; os olhares falavam tantas coisas, o toque das mãos dadas transmitiam o ritmo da vida.
Caminharam durante algum tempo e sentaram-se num banco, sob uma velha acácia. Os melros saltitavam na relva e os rouxinóis cantavam por entre a velha folhagem. Aqui e ali uma libélula sobrevoava os nenúfares do riacho, junto ao qual, lá ao longe se ouviam as vozes dos clientes do salão de chã, conhecida por “Ibérica”, em homenagem a D. Afonso Henriques e ao seu avô, D. Afonso VI, rei de Castela e Leão.
Mas deste lado do pequeno rio, as rãs coaxavam num cerimonial de acasalamento, tão natural mas que davam àquele lugar um ar bucólico e romântico. Ali respirava-se, vivia-se e apenas se pensava em amor.
O tempo foi passando e a noite caiu, envolvendo-os num manto de ternura e escuridão.

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