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Braga, terça-feira

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A Sueca

Criado... não aceita mau destino

A Sueca

Ideias

2019-12-08 às 06h00

José Manuel Cruz José Manuel Cruz

Em ano de Sophia, eis-nos arrebatados por nova menina do mar. Ridículo televisivo de atraca, não-atraca, de desembarca, logo parte rumo a Madrid, ou talvez fique, que a diligência tem os eixos comidos do caruncho, e já não se encontra quem deite ferraduras que enfrentem os desgastes da estrada real. E quem a recebe? Só estes? E porque não o outro, o maior? Documentários a sério, instrutivos, com os bois e os nomes, com quem exaure e delapida o quê, com que lucros criminosos, é que nem vê-los.
Compreendo o furor no plano da representação simbólica. Greta é a criança que exclama o rei vai nu, ante a adulação aparvalhada da turba. Greta é a Capuchinho Vermelho que leva de palmatória uma chusma de Lobos Maus. Greta é o mais feio e desengonçado dos patinhos, que um dia há de ser espécime esbelto. Greta é a virgem imaculada, em cujo ventre verbal encarna a novel redenção planetária. Greta é um Jesus Menino que declama versículos com verdades e obrigações apunhaladas, entre uma súcia de rendeiros da lei. Greta é um Gandhi, movendo o planeta, tal como o predecessor modelar acordou um subcontinente. Greta é vedeta improvável, a criatura algum dia anónima que nos atesta o poder da determinação: levantemo-nos, que o mundo muda! Inexoravelmente.
Digamos que Greta, em si mesma, é alheia a este poliedro de sentidos, que ela fez o que fez, porque o pensou, porque podia dar expressão factual a uma jornada semanal de agitação política, e porque não adormeceria sossegada se não avançasse. Aceitemos que o fez por consciência, por equilíbrio interno, mais do que por cálculo ou vantagens contabilizáveis, que é genuína, e que a sua genuinidade teve o condão de nos envergonhar ao mais alto nível. Que podemos nós fazer contra o cartel dos todo-poderosos? E a ONU acima de nós, que tão gémea é de reis que em pêlo desfilam? E estas cimeiras oficiais e paralelas vão além de um joguinho infantil do gato e do rato?
Confesso que não embarco no catamarã da descarbonização, assim, a seco, por moda. No que à acção do homem respeita, o que é que põe em causa a estabilidade do planeta? Não é a desflorestação desenfreada? Não é a mineração intensiva? Não é a produção em ciclo contínuo e o consumismo desbragado de artigos que prontamente se degradam? Não é a impermeabilização dos solos? Não são aeroportos ao rés das águas? Não são barragens em cima de barragens, e os sedimentos que de há décadas não entram mar dentro, restaurando defesas?
Se é o modelo social que está em cheque, como um todo, por que jogos florais glosamos a descarbonização e metas afins? Quão mais virtuoso é o pendão da emergência climática, do que o estandarte encardido da luta de classes, e quão mais não se agita a primeira, com a fantasiosa ideia de abandonar a segunda numa galeria de mina desactivada, repleta com bidões de lixo tóxico?
Eu sei que o modelo alternativo falhou, e nessa apologia não me apanham. A minha tese, porém, é a de que colapsaram os dois com similar estrondo. A economia contamina o que toca, o capitalismo é um oxímoro com qualquer qualificativo bondoso que se lhe justaponha.
Nestes preparos, entretêm-nos com causas subsidiárias, para que aparemos os ramos secos, deixando o tronco vigoroso em paz. Enleados no corta que não corta, ficamos satisfeitos com pírricos sucessos, enquanto alguém sussurra, entre brindes, business as usual. No fundo, põe-nos a jogar com um baralho de cartas marcadas, fazem macetes às claras, renúncias de bradar aos céus: valerá a pena assistir à pinta? A sueca já não é o que era.

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