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A surpreendente eleição de Donald Trump

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Ideias

2016-11-14 às 06h00

Pedro Morgado Pedro Morgado

Parece incrível que uma esquerda cheia de razão tenha perdido as eleições americanas. Mas aconteceu. Na ressaca da surpreendente jornada eleitoral em que Donald Trump, um candidato marialva da direita mais misógina e xenófoba, conquistou o poder quase absoluto nos Estados Unidos da América (USA, em inglês), há algumas reflexões que se impõem.

1 O eleitorado de Trump corresponde a uma amálgama de pessoas com motivações muito diversas, desde cidadãos de ideologia xenófoba, nacionalista e racista até cidadãos moderados, descontentes com o regime vigente no mundo ocidental. É verdade que este momento se constitui como um duro revés para aqueles que se empenham quotidianamente na construção de um mundo com mais tolerância e com menos muros (físicos e sociais), mas qualquer leitura simplista e, consequentemente, redutora da sua vitória ignora parte significativa do problema e contribui para que este se adense nos tempos vindouros.

2 Depois do Brexit ninguém deveria ter o direito de se dizer surpreendido. Ainda assim, confesso-me surpreendido. Mais do que uma manifestação conjuntural de descontentamento, o Brexit representou o primeiro grande abalo estrutural na ordem política do pós-Guerra.
3 Tal como sucedera no Brexit, os resultados americanos espelham uma sociedade profundamente dividida entre o meio urbano e o meio rural  (com acentuação das tendências dominantes de voto).

4Nos USA, tal como no Reino Unido (UK, em inglês), foram os trabalhadores da velha indústria (normalmente sindicalizados e tradicionalmente eleitores de esquerda)  que, esmagados pelo neoliberalismo e pela globalização, protagonizaram a maior surpresa ao mudarem o seu sentido habitual de voto.

5 As esquerdas europeias e americana precisam de se repensar para voltar a dar resposta aos anseios das populações que servem. Pior do que a estagnação económica e da falta de perspectivas de futuro das classes média e baixa em todo o mundo ocidental, o agravamento das desigualdades económicas e sociais conduziu a um perigoso desencantamento e descontentamento das maiorias com a democracia liberal.

6 A teia montada pelas políticas económicas neoliberais  (que na Europa chegaram a ter a benção inusitada de grandes líderes da esquerda democrática como Tony Blair e Gerhard Schröder)  está a pôr em risco a democracia liberal  (que respeita e acolhe todos apesar das suas diferenças)  e a substituí-la pelos nacionalismos populistas  (outra vez).

7O nacionalismo é, infelizmente, uma ideologia muito sensual nos dias que correm. Usa a legitimidade do voto da maioria para se constituir como uma autêntica ditadura da maioria, procurando responder “aos anseios do povo” sem respeitar a diversidade que compõe o tecido social. Despojados de tudo, incluindo de perspetivas de futuro, homens e mulheres altamente penalizados pela globalização (que foi muito benéfica para os tais 1% mais ricos e para as classes baixa e média dos países em desenvolvimento) entregam a sua esperança ao ideal coletivo de nação.

8 O que as eleições americanas (e o Brexit) demonstram é que já não chega acusar as pessoas de terem um discurso racista, xenófobo ou misógino. É urgente voltar a explicar porque é que esse discurso e essas políticas são prejudiciais para a sociedade e para as nações.
Os dados estão em cima da mesa. Actuar em função deles é uma responsabilidade da esquerda democrática e de todos os cidadãos que querem construir um mundo com mais igualdade, mais fraternidade e mais liberdade outra vez.

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