Correio do Minho

Braga, sexta-feira

A tragédia do destino

Amarelos há muitos...

Conta o Leitor

2015-08-07 às 06h00

Escritor

Manuel Correia

Brincar! Brincar como se o mundo fosse um parque de jogos, uma bola de algodão doce! O mundo de uma criança é um mundo à parte, perfeitamente moldável. Uma etapa da vida, que, para uns é o tempo ideal, mas que para outros é curta demais!
O sol nasce para todos, mas só brilha para alguns. Esta é a frase que se adequa a muita boa gente!
Numa terrinha distante da cidade, existia um miúdo, como muitos outros, do tempo em que as brincadeiras exigiam imaginação, criatividade, e muita energia. Henrique era magro, de pele morena, cabelo preto, e um sorriso feliz. Um miúdo que ia à escola de cara lavada, e roupa por vezes cheia de remendos, hoje estava na moda! Gostava de ir à escola, ao contrário da maioria que era um frete que faziam. Quando a professora falava o mundo à sua volta deixava de existir, só via e ouvia a professora. Tinha uma admiração por todos os professores, reconhecia o quanto importante eram, no abrir de um mundo fantástico: ler, história, matemática, ciência etc. Os sonhos estavam ao seu alcance! Cada vez absorvia mais os ensinamentos, e à medida que crescia, via o mundo de maneira diferente. Aquele miúdo ingénuo e de origem modesta via a outra face do mundo: as pessoas davam mais valor, ou só davam valor ao materialismo e não aos valores enquanto ser humano!
A sua infância apesar de ter momentos de muita felicidade, também teve um momento marcante que, mudou a sua vida para sempre! Tinha 6 anos, o pequeno acordava de uma noite bem dormida e com a felicidade de um passeio de domingo ao S.Bento da porta aberta. Mas a sua felicidade esvaneceu-se quando acordou, os seus pais foram sem ele! A irmã mais velha ainda o tentou consolar, e justificar o facto de os pais não o levarem, “ a mãe ainda te tentou acordar, mas estavas a dormir tão bem, e vais para a próxima”. Ir para a próxima não era a mesma coisa, a ideia fixa de ir naquele dia, os planos estavam feitos, a paisagem que queria ver naquele dia, já a tinha imaginado: uma terra longe de casa, uma igreja enorme, andar de camioneta, toda a envolvência daquele passeio. Não se conformava, havia uma frustração que teimava em não esmorecer. Chorou, fez birra, ninguém o conseguia consolar.
O almoço chegou e a sua irmã chamou-o para comer. Henrique, apesar de ter apetite, não queria comer, pensando que com a sua renúncia iria recuperar o passeio perdido, mas puro engano, o que passou não volta mais. A sua irmã com muito carinho e paciência, lá conseguiu que Henrique fosse almoçar. Comeu a custo, mas de vez em quando ainda se lembrava, e voltava a frustração. A sua irmã, Lídia, era o seu nome, prometeu-lhe que o levava, com ela a visitar uma amiga do outro lado do rio Cávado, em Cabanelas. Não era a mesma coisa que ir ao S.Bento da porta aberta, mas pelo menos era um passeio, tinha que andar de barco, podia comer umas guloseimas. Mas ir ao S.Bento da porta aberta era melhor, andar de camioneta!
As tardes de Junho são quentes. O sol estava mesmo por cima das cabeças de Henrique e Lídia, o barqueiro ia deslocando o barco, metendo a vara no fundo do rio. Melhor do que ninguém ele sabia o melhor percurso, e em poucas varadas e apesar da corrente, o trio estava do outro lado do rio Cávado. Por momentos tudo voltava ao normal, Henrique esboçou um sorriso de satisfação, e a sua irmã via assim o seu esforço e amor, compensado. Um sorriso era o bastante para que Lídia ficasse feliz. O caminho desde o rio à casa da sua amiga era de terra batida, mas pouco mais de um quilómetro, e depressa chegaram à porta de entrada. A amiga de Lídia já estava à espera, e foi com dois beijos que as duas se cumprimentaram, e, Lídia de pronto apresentou o seu irmão, que a princípio se mostrou um pouco tímido, mas a pouco a pouco, lá se foi soltando. Paula era o nome da amiga de Lídia, era uma mulher bonita, e simpática. Como boa anfitriã, tinha preparado um lanche, e Henrique timidamente lá foi tirando uma sanduiche de bolacha maria com marmelada, e Paula passou a mão na cabeça de Henrique dizendo, “és tão lindo, come o que quiseres, não tenhas vergonha”.
A tarde já ia longa. A conversa entre as amigas estava na fase das histórias já contadas, coisas de adultos, códigos maduros que uma criança não entende, e, que até chateia. Lídia já tinha notado da agitação do irmão, e também eram horas de atravessar o rio, antes que fosse noite.
O barco fez um desenho nas águas do rio, por baixo do barco os peixes sentiam a vara a bater no fundo e fugiam para longe. Uma rã cantava a chegada do barco à margem. Henrique dirigiu-se para a proa do barco e deu um salto para a relva, como que a dizer, “eu consigo saltar muito”. Foram para casa com um ar de satisfação, a tarde foi bem passada, e, Henrique já se tinha esquecido do passeio com os pais. A sua casa era perto do rio, e foi que, em pouco mais de dez minutos os dois estavam de regresso à velha casa, coberta de telha à Portuguesa.
Henrique brincava agora no terreiro, com os seus brinquedos artesanais, no seu mundo de criança, livre de qualquer interferência exterior. Só ele, no seu mundo de fantasia! Entretanto uma voz exterior ao seu mundo fez o seu mundo fugir. Era o seu vizinho, um rapaz da sua idade, a desafiar para brincar com ele. A princípio disse que não, mas o vizinho era persistente e Henrique lá cedeu. Não gostava de dizer não, muitas vezes cedeu em jogos de futebol, em que era golo e os adversários teimavam em dizer que a bola passou ao lado da baliza. O que ele queria era jogar, o resultado pouco contava. O seu vizinho era também dos que não gostava de perder e recorria a todas as estratégias.
Em quanto brincavam, e, a brincadeira já ia longa, e foi que, o seu vizinho desafiou Henrique a ir até à estrada, havia música nos altifalantes pendurados na árvore mais alta, o bazar de prendas estava a ser rematado. E havia outros miúdos para jogar aos cowboys. Era um jogo em que uns corriam atrás dos outros, e, quem fosse apanhado perdia. Parece um pouco banal, mas adrenalina subia e correr era tão bom!
Lídia estava de olho no irmão, mas a malandrice e astucia de Henrique, fez com que num ápice o rapaz se esfumasse do terreiro com o seu amigo.
No largo, ao lado da estrada, um aglomerado de pessoas assistiam e participavam no bazar de prendas, para recolher fundos para a festa da terra. Os miúdos corriam por entre a pequena multidão, fugindo uns dos outros, no jogo da adrenalina. Henrique corria como um louco, dando gargalhadas de prazer. O suor cobria a maior parte do seu corpo, era tal a folia. Ninguém o apanhava, era rápido e esgueirava-se entre as pessoas como se fosse o vento! A estrada era uma extensão do largo, tal era a ausência de automóveis e qualquer outro veículo! A brincadeira continuou por mais tempo, os miúdos são como as pilhas que duram e duram. Henrique corria e fugia, como quem foge ao destino!
O sol caía por trás dos montes, bem longe da brincadeira. O bazar estava no último segredo, era o melhor, e a multidão fixava o olhar numa travessa coberta por uma toalha de linho! Um estrondo fez mover os olhares 180 graus! Um vulto tinha sido arrastado por uma mota que apareceu do nada! Todos correram para ver e socorrer o pequeno vulto que foi apanhado pela roda da frente da mota. “Meu Deus, tanto sangue, coitado, chamem uma ambulância”. Não havia tempo para ambulância, depressa pegaram no corpo e num dos poucos carros existentes, levaram o corpo para o hospital.
Henrique correu e ninguém o apanhou, até surgir aquela maldita mota. Se morreu? Não, passou por um mau bocado, três dias em estado de coma, uma cicatriz para a sua vida, e, durante muito tempo, um fantasma o perseguiu. O fantasma do destino, se fosse àquele passeio com os pais, se ficasse a brincar no seu mundo, em casa, tudo seria diferente. Mas durante a sua vida foi se apercebendo que a sua tragédia tinha-lhe mostrado algo positivo. Que apesar de ficar com uma cicatriz, o que faz de nós humanos, não é a pele, não é o que temos de bens materiais, mas os valores morais, e pensar não como um eu mas como uma espécie. Porque o verdadeiro sentido da vida é não ter sentido nenhum.

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