Correio do Minho

Braga, terça-feira

'A última caçada'

Tancos: falta saber quase tudo

Conta o Leitor

2013-07-22 às 06h00

Escritor

Luís Veloso Ferreira

Faziam uma dupla singular e inseparável na caça: o Calais, esgrouviado, seco, de poucas falas, grande andarilho, ninguém como ele conhecia montes e vales, levantes ou revoadas de perdizes.
- Não facilites! Elas aí vão! Pum! Pum! Perdiz que caísse ferida de asa, ele ia direito ao sítio, e, depois, esperava que a perdigueira lhe seguisse no rasto, até que, finalmente, desse com ela e a abocanhasse, para lha trazer à mão.

O Sampaio, seu companheiro, gordalhufo, loquaz, de pouca perna, no ensino dos cães não tinha igual: cachorro, puro ou travesso, que lhe viesse às mãos, em pouco tempo estava pronto a caçar.
Na sertaneja venda da aldeia onde viviam, caçadores, enquanto bebiam suas malgas de tinto e contavam fantasiosas estórias de caça, animados pela pinga, exclamavam extasiados - Cães tem o Sampaio!

Ainda mal aclarava o dia, já ele estava, impaciente, à porta da Casa do Caminho, a modesta, mas asseada casa do Calais, que naquelas frias manhãs de Novembro a muito custo saltava da cama para ir às perdizes, deixando o gostoso conforto do calor da mulher.
Pintava a aurora, e já se ouvia o tropear que faziam com os cães pelos caminhos da aldeia, a sair para o monte.

O destino era quase sempre o Monte da Giesta, onde entravam pelas vinhas, ou pela mata da Calva, mais raramente, pelo Altinho, à meia encosta, seguindo, depois, para os altos, à Chã da Capela, até se ver, ao longe, onde também iam, o Monte Vermelho, assim nomeado porque as flores roxas da urze lhe davam uma tonalidade avermelhada, numa volta que, a andar bem, dava para todo um dia de caça.
Numa das últimas vezes, iam a entrar na mata da Calva, o Sampaio, pretextando achar-se adoentado, voltou para trás - O Calais que seguisse, que mais tarde o alcançaria, se melhorasse. Mas não voltou.

No domingo seguinte, sem pretexto - Que não ia, que não lhe apetecia, que fosse só, com os cães dele, se quisesse.
O Calais, ainda não chegara à Calva, mas, desconfiado, voltou para trás, a tempo de lhe parecer ver o Sampaio a esgueirar-se, furtivo, por um janelo da Casa do Caminho.
A partir daí, quedou-se atento, até tudo descobrir, não ficando sombra de dúvida, um pode-ser-quem-sabe a que se agarrasse, para não fazer o que planeava àquele que fora o seu melhor companheiro de caça.

Talhou tudo para o último domingo de Dezembro, dia do fecho da caça, por ter a certeza que ele não faltaria à última caçada do ano às perdizes.
- Hoje, disse, voltando-se para o Sampaio, imos para o Monte Vermelho, que soube que naquele outeiro entaliscado de penedos, virado a nascente, sobre a ribeira do Pego, anda um bando de perdizes, que não está batido, e que são certas todas as manhãs.
E continuou: - Eu vou por cima, tu por baixo, pelo outro lado, junto ao valo da ribeira; eu atiro-lhes de cima, que o bando, depois, quebra de asa para a tua banda, e será a tua vez, a tua última vez, repetiu, sorrindo.

Com uma magnífica e álgida lua cheia de Dezembro, naquela madrugada vestiam ambos jaquetas de saragoça e calças de surrobeco, para se resguardarem do frio, polainas assertoadas e chancas cardadas, para não escorregarem na caruma dos pinheiros, caminhando calados, com as mãos nos bolsos, e a coronha das espingardas encostada ao sovaco.
Ouviam-se já as cotovias a cantar pelos altos quando, de repente, o tempo começou a toldar-se, arrefeceu, carujo e sincelo pelo cume dos montes, que deixavam de ver-se, mas eles continuavam a caminhar.

O Calais não desanimava, pois já só queria chegar ao outeiro entaliscado de penedias.
O tempo aclarou, entrado no sopé do monte, meteu um zagalote grosso no cano esquerdo da espingarda - este é para o Sampaio, pensou, e um cartucho no direito, para as perdizes.
De repente, viu a sua melhor cadela, a “Tavira”, a dar sinal: quási de rojo, avançava muito devagar monte acima, pára aqui, pára acolá, seguindo um pequeno carreiro, por entre os penedos, até que estacou marrada para uma mouta de tojo.

- Bota fora, “Tavira”, balbuciou, dando-lhe um leve pontapé, para a animar a prosseguir … um perdigão arrotou com toda a força para trás, descendo o oiteiro e, com ele, um bando de perdizes. O perdigão caiu redondo, e as perdizes, de asas abertas, desceram até ao distante fundo do vale, quebrando de asa para o lado contrário ao do Sampaio.
Foi buscar o perdigão, que a “Tavira” trazia já na boca, pendurou-o ao cinturão e, pensou - O Sampaio fica para logo, à noitinha, vou mas é no encalço das perdizes, que só lá para Outubro é que volto a dar o gosto ao gatilho.

De levante em levante, ainda caçou mais três perdizes; quando pendurou a última, estava longe, escurecia e sentia uma fome danada, que andara todo o santo dia com uma bucha de pão e uns goles de vinho, que bebera dum cantil, que trazia amarrado ao cinturão.
Do Sampaio nem um tiro se ouvira. Resolveu meter a festo para casa e, ao chegar, pensou - Não perdes pela demora, para o ano há mais dias de caça. Sentou-se à lareira, e voltando-se para a mulher: - Chega-me uma malga de caldo bem quente, que não comi em todo o dia, e entregando-lhe as perdizes - A caça desde que entra em casa para mim perde o interesse.

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