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Ideias

2019-04-30 às 06h00

João Marques João Marques

Quis o destino que este texto se publicasse entre a comemoração do 25 de abril de 1974 e o 1.º de maio (de 1886). Uma boa oportunidade, parece-me, para perder tempo com a perspetiva de futuro da liberdade e democracia no contexto da social-democracia que defendo.
Julgo ser já um discurso estafado, embora necessário, o que se debruça sobre a imprescindibilidade de defendermos os “valores de Abril”, a liberdade e os direitos dos trabalhadores. Prefiro, por isso, centrar-me no “como” e não tanto no “se”, já que este último é claramente pacífico.
Pela minha parte, sinto-me confortável no espectro social-democrata à portuguesa, representado pelo PSD e cuja história tem mostrado não só ter nascido, como ter-se mantido, como o mais português de Portugal. Não se trata de qualquer mantra ultranacionalista, mas, tão-só, de reclamar uma evidência histórica e sociológica, tal é o desapego classista da sua base de apoio e o muitas vezes divergente sentido político prioritário que vão demonstrando as suas lideranças. É um “catch-all party”, ou seja, um partido que consegue mobilizar gentes e vontades nem sempre coincidentes nas marcas acessórias da ação política (em temas que se apelidam de fraturantes, embora não só), mas sempre acobertadas pela filigrana de valores identitários comuns. Tão intrincado como qualquer ornamento das festas da Senhora da Agonia, mas tão óbvio quanto o seu desenho. Sabemos exatamente em que espectro político nos encontramos, sem deixarmos de partilhar diferenças na concretização da visão que temos sobre o mundo e a sociedade. Penso ser essa esquizofrenia saudável, entre a segurança de um caminho comum e a inconstância do personalismo mais individualizante (que está também na matriz do PSD), a razão para o sucesso repetido, junto dos portugueses, de líderes tão distintos como Sá Carneiro, Cavaco Silva, Durão Barroso ou Passos Coelho.
Hoje, porém, a encruzilhada do PSD, que tantas vezes vejo citada, de forma errada, entre a aproximação ao liberalismo ou a estagnação na sua matriz original, não pode deixar de levar a que se reflita no seu papel em Portugal e na Europa. “O mundo mudou”, como assinalava José Sócrates, em 2010. E não foi bem a mudança que ele antecipava aquela que motiva esta reflexão.
O mundo mudou porque os desafios da natalidade são agora mais prementes e muito distintos daqueles que existiam nos idos de 74. O problema de Portugal, e de grande parte do mundo ocidental, não é o que fazer com a muita população jovem que tínhamos. Pelo contrário, o que somos obrigados a debater é a pirâmide demográfica invertida e, por isso, insustentável, no plano social. Não é a discutir se abrimos ou fechamos fronteiras que lá vamos, é antes a preparar o país para a inevitabilidade de nos mostrarmos como destino de excelência para os imigrantes que nos possam procurar. Nações, como Portugal, onde existem preocupações de integração, onde se respeitam as diferenças e onde se oferecem perspetivas de futuro sólidas, têm de se mostrar ao mundo e atrair os excedentes jovens de outras latitudes. Com regras, claro, mas é isso que faz a política, estabelecendo regras para a sã convivência comunitária.
O mundo mudou e o futuro já cá está. Os modelos laborais do passado dizem cada vez menos a cada vez mais gente. Já não é só a precariedade que coloca em risco as vidas das pessoas e das famílias, é sobretudo a automatização de muitas das funções e tarefas que competiam, até há bem pouco tempo, a seres humanos. A automatização e a digitalização da economia, pelo menos no grau que estamos a experienciar, são fenómenos que seguramente terão passado ao lado dos muitos fundadores da social-democracia nacional. Os modelos de representação das classes profissionais alteram-se a contento e espelham a desagregação de causas e interesses que motivam as novas reivindicações.
O mundo mudou e, um partido como o PSD, que tem como principal vantagem, o não agrilhoamento a uma ideia de sociedade imutável e incontestável, tem de estar na linha da frente do combate político pelas soluções de futuro. Sem comprometer o que o identifica, mas também sem fingir que não vê que as alterações que passam à sua frente o obrigam a pôr em prática a sua marca reformista, começando por si próprio.
Se nos lembramos da famigerada terceira via do socialismo, liderada por Tony Blair e os Trabalhistas Britânicos, rapidamente percebemos como é delicado e difícil o trabalho de harmonizar conceitos históricos de ideologias políticas tradicionais com realidades novas que insistentemente lhes fogem. E se há o risco de falhar redondamente na tentativa de o fazer (como em parte sucedeu no Reino Unido), mais gravosa é a certeza a que nos condena o imobilismo, ou seja: à falência de Abril, à perda da liberdade e ao perigar da democracia.

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