Correio do Minho

Braga, quarta-feira

A Viagem do Elefante

Por mais cultura do treino e treino baseado na ciência

Ideias

2010-06-20 às 06h00

Carlos Pires

1. O relatório final do inquérito à eventual compra da TVI pela PT concluiu que Sócrates sabia do negócio quando, a 24 de Junho de 2009, no Parlamento, disse o contrário. O relatório conclui ainda que houve intervenção do poder político no caso.
Em abono da verdade, o relatório não nos fornece nada de novo. Há muito que todos nós havíamos percebido o essencial: que Sócrates sempre soube do negócio PT/TVI, por um lado, e que tudo o resto era jogo político, por outro lado. No fundo, a comissão de inquérito foi criada - por impossibilidade do PS em impedi-la - para manter brando o lume onde a reputação e a credibilidade de Sócrates junto da opinião pública iam ardendo. E isso sempre bastou à Oposição, que desde o princípio não pretendia mais do que enfraquecer o Primeiro-Ministro.
Sócrates mentiu? Pelos vistos não se pode afirmar isso sem evitar que o Primeiro-Ministro exija de imediato um pedido de desculpa, idêntico, de resto, ao que já solicitou aos deputados da oposição. Assim sendo, continuamos sem perceber as razões pelas quais Sócrates recusou qualquer interrogatório presencial em sede de comissão de inquérito. Afinal de contas, “quem não deve não teme”! Já Rui Pedro Soares, o “boy” socialista e postal ilustrado dos “jobs” que o alinhamento em máquina partidária pode fornecer, anunciou que vai processar criminalmente Pacheco Pereira por alegada difamação. Daria para rir, não fosse a (falta de) seriedade do assunto ou dos intervenientes em questão.
O PSD votou favoravelmente o relatório da comissão de inquérito por ser “correcto e adequado” ao apuramento da verdade. Contudo, afastou a apresentação de uma moção de censura. Afinal, a alegada “mentira” de Sócrates, bem como a aparente ingerência do poder político na tentativa de controlar ou silenciar um canal de televisão, ou alguns dos seus directores e jornalistas, não parecem constituir factos suficientemente graves para que a moção de censura fosse apresentada. Então, qual a razão de tanta perda de tempo com inquéritos, relatórios e discussões, que absorveram o tempo de tantos deputados que, ao invés, deveriam ter estado focalizados no debate dos muitos e verdadeiros problemas que o país atravessa?
Jogos, jogos e mais jogos políticos, que o comum cidadão não consegue vislumbrar e que o confundem. Infelizmente, a memória é curta. E a vontade de manifestar, pelo voto, o repúdio quanto à forma como os políticos exercem o poder, mais curta é.
Aparentemente alheios a tudo isto, os políticos prosseguem incólumes, mais preocupados com a perpetuação do poder do que com o interesse colectivo, guiando o país nesta “viagem” acidentada e tumultuosa. Uma “viagem” em que quem perde somos todos nós.

2. José Saramago morreu. Desaparece um enorme escritor universal, alguém cuja arte literária se impôs ante a Academia sueca do Nobel como o mais representativo da nossa língua. Aprendi a admirar a escrita de Saramago, arrojada e subversiva, avessa por completo a regras elementares da gramática, como o uso de parágrafos, letras maiúsculas, pontos finais ou aspas. As suas obras constituem um olhar sobre a humanidade, em que a ironia e o sarcasmo, marcas da lucidez implacável do autor, se combinam com a compaixão solidária com que observa as fraquezas humanas.
Além do génio literário, fica para sempre a imagem de um homem crítico. O mesmo homem que disse que se para ganhar o Nobel tivesse que renunciar às suas convicções, renunciaria antes ao prémio.
“A Viagem do Elefante” foi o seu penúltimo romance, editado em Novembro de 2008, escrito em condições de saúde muito precárias, e que constitui uma deliciosa metáfora da vida humana Na sua simplicidade, o título não poderia ser mais literal. O livro, que parte de alguns apontamentos históricos reais, narra a viagem de um elefante indiano que D. João III resolveu oferecer, em 1551, ao arquiduque austríaco Maximiliano II (seu primo). No centro de tudo está a odisseia do paquiderme, na viagem desde Lisboa até Viena, por planícies abrasadoras, serras geladas, chuva e nevoeiro.
Traduz a longa marcha dos homens, “a viagem de qualquer um de nós para o sítio que sempre nos espera”: a morte. “Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso', defendeu Saramago.
Quando o elefante morreu, 1 ano apenas após a sua chegada a Viena, as patas dianteiras foram cortadas para servirem de porta guarda-chuvas, colocados num palácio da capital austríaca. 'Sem esse final, eu não teria nada para escrever o livro', disse José Saramago. 'Porquê essa humilhação?', perguntou-se. 'O que dá o significado último à vida é o que se passa depois da morte', acrescentou.
Saramago terminou a “viagem” da sua vida. Ficam as obras, relíquias intemporais, que enriquecem e enriquecerão a vida dos que ainda viajam e dos vindouros.

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