Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A vida é bela…

A União Europeia e os Millennials: um filme pronto a acontecer

Conta o Leitor

2011-07-03 às 06h00

Escritor

Por Alfabeta

A chuva caía com intensidade naquele final de tarde de Outono.
Da janela de seu quarto, Marcus olhava com raiva lá para fora. Vinte anos e “agarrado” aquela cadeira de rodas! Lá fora a vida seguia seu ritmo normal.
Há cerca de dois anos atrás, depois de uma noite de copos, César, amigo de Marcus, conduzia o BMW, de seu pai, novinho em folha, quando inexplicavelmente o acidente se deu. Como? Culpa de quem? Porquê? Perguntas que ficarão sempre retidas em sua memória por não terem resposta, quando acordou na cama do hospital, imobilizado da cintura para baixo. Paraplégico.
César fazia nesse dia vinte anos e decidiu juntar uns amigos para comemorar a data. Jantaram fora e depois foram até um bar, junto á praia.
No veículo seguiam quatro rapazes e uma rapariga, entre eles Marcus. Tinham entre dezoito e vinte e dois anos.
César faleceu a caminho do hospital. Marcus, ficou paraplégico. Marta saiu do coma uma semana depois com bastantes sequelas. Ainda fazia fisioterapia para tentar recuperar a mobilidade dos braços e de uma das pernas. Raul foi operado aos joelhos e Francisco depois de ter recuperado do traumatismo craniano, vivia enfiado em gabinetes médicos, do foro psiquiátrico. Era noivo de Marta. Alguns meses depois do trágico acidente, acabaram a relação. Nenhum deles estava em condições de continuar depois do trauma provocado pelo acidente. Todos tinham bebido muito. César, o jovem que conduzia, também. Marcus era talvez de todos eles o que menos tinha bebido, mas não se lembrava de nada do acidente, apenas o acordar no hospital, só e imóvel.
Volvidos, dois anos de inércia, quebrados apenas por visitas constantes a hospitais, centros de saúde e fisioterapia, Marcus reiniciou seus estudos na Universidade.
As limitações inerentes ao seu estado obrigavam-no a deslocar-se em cadeira de rodas em edifícios construídos sem preocupações de acesso nem espaços físicos adequados. Desde a saída até á entrada em casa, “as aventuras” sucediam-se a ritmos alucinantes.
A casa onde viva com seus pais, tinha sido por eles adaptada para uma melhor deslocação no “seu novo veículo” como Marcus chamava à cadeira de rodas. Não queria ouvir falar de carta de condução, nem de carro adaptado…
A campainha da entrada da casa tocou com insistência.
Saindo de perto da janela de seu quarto, donde a vista era fantástica, mesmo com a chuva intensa que caía naquele fim de tarde, Marcus resmungou chateado:
- Não tá ninguém em casa?! Já lá vou… calmex.
- Quem é????
Ruídos estranhos vindos do lado de fora, foram a resposta. Pensando que eram alguns de seus amigos com as habituais partidas, abriu a porta com o comando.
A jovem que lhe surgiu na frente, cambaleante, com as roupas coladas ao corpo e jorrando sangue algures da cabeça, balbuciou:
- Ajude-me por favor!
O carro onde ela seguia tinha rebentado um pneu e não o conseguindo controlar bateu na árvore que de repente surgiu na sua frente. Tentou ligar pedindo ajuda mas o telemóvel não tinha carga. Sentindo tonturas e o pânico a invadi-la, saiu do carro. Vagueou durante alguns minutos, perdida entre o espaço e o tempo, sem sentir a chuva que caía com abundância. Bateu à porta da primeira casa que lhe apareceu…
Roberta abriu os olhos e viu a seu lado a última imagem que tinha retido na memória.
Um jovem, moreno de intensos olhos verdes, lindo, em cadeira de rodas.
- Sou o Marcus e quero saber como está?
- Vou ter que agradecer o facto de estar bem, graças a si, respondeu Roberta.
Meses depois era conduzido através dos longos corredores da Universidade, por Roberta, a brasa da sua namorada, cobiçada por todos, a caminho das aulas.
Lá fora a chuva tinha deixado de cair e o sol brilhava intensamente

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