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A vida é breve, a arte longa…

Beco sem saída

Ideias

2016-04-08 às 06h00

João Ribeiro Mendes João Ribeiro Mendes

…a oportunidade passageira, a experiência enganosa e o juízo difícil, assim reza o célebre conjunto sequencial de aforismos - ou concisas sentenças de tonalidade moral - originalmente atribuídas a Hipócrates de Cós, o denominado ‘pai da Medicina’, mais conhecidos na expressão elíptica latina (que inverte a original, aqui em título) “ars longa, vita brevis”, popularizada pelo filósofo estoico dos primeiros anos da Era Comum, Lúcio Aneu Séneca, na sua obra Sobre a brevidade da vida.
Esta última tem vindo a ser considerada flexíloqua, porquanto, segundo alguns, ela pretende evidenciar a fugacidade da nossa vida e o suposto dever de não a desperdiçarmos e de aproveitarmos as oportunidades que se nos propiciam e, de acordo com outros, o seu principal alcance afigura-se ser o de exaltar a perenidade da arte, das criações que sobrevivem aos seus autores.
Os dois vultos do pensamento e da escrita que aqui pretendo evocar deixaram-nos muito recentemente. Ambos tiveram vidas relativamente longas, mas que, por causa da sua riqueza criativa e reserva de inspiração para tantos, a começar por mim próprio, nos pareceram demasiado curtas. Ficaram, felizmente, as suas ideias e os seus escritos, que são imorredoiros.
Começo pelo primeiro que partiu: Hilary Putnam. Fê-lo no dia 13 de março passado, a alguns meses de completar os 90 anos. O filósofo estadunidense realizou, reconhecidamente, contributos notáveis para as áreas da filosofia da mente, da filosofia da linguagem e da epistemologia. Conseguiu, como poucos, harmonizar o rigor analítico com a imaginação fecunda e servir-se de ambos para atrair muitos para a reflexão filosófica. Notabilizou-se, a esse respeito, por recorrer com frequência a provocadores “experimentos mentais” - o exame de uma hipótese através das suas antepercebidas consequências. As mais conhecidas destas são: a do “cérebro numa cuba”, que aborda o problema do ceticismo, isto é, dos limites do conhecimento humano; a da “Terra gémea”, destinada a mostrar que o significado dos termos linguísticos que usamos não está nas nossas cabeças; e a da formiga que desenha na areia uma caricatura da efígie de Winston Churchill, sem alguma vez ter visto o estadista britânico, para sugerir que não pode haver significação desvinculada de intencionalidade.
No último dia de março ido também Imre Kertész nos deixou. O escritor húngaro, nascido em Budapeste em 1929, apenas chegou aos 86 anos. Planetariamente conhecido, sobretudo desde 2002, após ter sido agraciado com o Nobel da Literatura, a sua vida teve a sina de outros compatriotas seus: sofreu primeiro com a ocupação nazi do seu país em 1944, tendo logo sido deportado para Auschwitz e depois para Buchenwald, e no ano seguinte com a ocupação soviética. A vivência dessas situações-limite moldou inteiramente a sua visão da existência pessoal e humana. Mas foi a primeira que mais fundamentalmente o marcou e que descreveu com ímpar sensibilidade na trilologia - vertida na língua portuguesa: Sorstalanság (Sem destino: 1975), A kudark (A recusa, 1988), Kaddis a meg nem született gyermekért (Kaddish para uma Criança que não Vai Nascer, 1990).
A mensagem que perpassa essa sua prosa é a de que, mais do que com esperança, devemos viver com coragem. Foi com ela que Kertész intentou manter-se na existência depois do Holocausto: a coragem de, apesar dos horrores testemunhados - descritos através do olhar intranquilo de Gyurka, o herói do primeiro romance da referida trilogia - não odiar os algozes carniceiros.

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