Correio do Minho

Braga, quinta-feira

A Vizinha..., de Maria Fernandes

As Bibliotecas e a cooperação em rede

Conta o Leitor

2010-07-26 às 06h00

Escritor

Conhecia-a há muitos anos. Tinham sido vizinhas em Queluz. Durante quase nove anos tinham vivido no mesmo prédio, no mesmo andar; viam-se diariamente, as idades eram aproximadas, mas a relação nunca tinha ido além das cordiais saudações normais entre vizinhos minimamente civilizados.

Hoje ia ao médico da parte da tarde. Ginecologista. Rotina anual. Um frete que detestava. Enfim…

Naquela espécie de enfado, tédio e descontentamento em que normalmente se desenrolavam os seus dias, a ida ao médico, embora desagradável, proporcionava a obrigação de quebrar a rotina que normalmente seguia de forma estupidificante, mais por inércia do que por necessidade, visto que dispunha de grande liberdade de acção. Era sócia da empresa em que trabalhava e se assim bem entendesse nem nunca lá poria os pés. E provavelmente a diferença até nem se notaria por aí além. Mas isso em nada alterava o facto de que todas as manhãs, religiosamente, se levantava e preparava para ir trabalhar.

Era a primeira a chegar e a última a sair, trabalhava o dia todo, à secretária, a fazer as mais diversas coisas.

Isto desgastava-a, não lhe tirava a vontade de viver, mas era suficiente para causar a tal inércia que a levava a uma certa imobilidade.

Por isso, a ida anual ao ginecologista, representava não apenas uma necessidade, como uma obrigatoriedade de quebrar a rotina.

Decidiu aproveitar as circunstâncias para obrigar-se um pouco mais e tirar a tarde toda de folga. Saiu à hora de almoço - sozinha. Foi a pé até à Avenida de Roma e por ali comeu qualquer coisa de que mais tarde nem conseguiu recordar-se do quê ou de onde.

Apesar daquela avenida ser uma das principais da cidade, nunca lhe despertara particular simpatia. No entanto, até gostava de lá ir, e além disso, ali se encontravam algumas das lojas que mais apreciava, entre elas, a sua sapataria preferida. A acrescentar a isso, a sua antiga vizinha de Queluz trabalhava lá e seria um prazer revê-la. Da última vez que ali tinha estado com ela haviam combinado que da próxima sairiam para ir tomar um café e conversar um pouco.

Que engraçado! Tal possibilidade nunca lhes tinha ocorrido durante todos aqueles anos em que tinham vivido no mesmo prédio e no mesmo andar. Tinha visto a filha mais velha da vizinha crescer e tinha acompanhado também o crescimento da barriga da mãe quando estava grávida da mais nova e depois o crescimento desta. Tinha assistido ao desenrolar exterior da vida daquele casal e percebido algumas coisas quanto à sua vida pessoal. Nesse tempo a vizinha ainda não trabalhava na sua sapataria de eleição e por essa razão quando lá ia não a encontrava.

Foi só quando se mudou para Lisboa que se apercebeu de que tinha criado laços invisíveis com aquele casal. E apercebeu-se de forma estranha: começou a sonhar com eles.

É certo que sempre desejara voltar para Lisboa e nunca se habituara a viver nos subúrbios, mas sentia saudades da casa que deixara - gostava muito daquela casa. Frequentemente então, passou a sonhar com a casa e com o prédio, e aqueles vizinhos faziam sempre parte desses sonhos e neles figuravam como amigos e não apenas como os vizinhos que sempre haviam sido.

No dia em que pela primeira vez encontrou a antiga vizinha na sua sapataria, a alegria de ambas foi imensa e genuína. Percebeu nitidamente que o fenómeno era mútuo e que, de alguma forma, eram amigas, sem nem mesmo saberem o nome uma da outra. Conversaram um belo bocado. Da vida, das mudanças, das filhas da vizinha que estavam cada vez maiores e depois não puderam falar mais porque estavam num local de trabalho e não propriamente num encontro de antigos alunos de uma qualquer escola.

De forma que por vezes ia lá e falavam sempre um bocadinho, um bocadinho que invariavelmente lhes sabia a pouco e por isso da última vez (já há algum tempo, parecia-lhe) tinham combinado que da próxima a amiga sairia por um bocado para irem tomar um café e conversar mais calmamente.

Após almoçar, satisfeita, dirigiu-se então calmamente à sapataria onde ela trabalhava - iriam finalmente conhecer-se um pouco ao fim de tantos anos de uma amizade que nascera e permanecera no inconsciente de ambas.

Entrou e não a viu. Dirigiu-se a uma jovem que estava atrás do balcão e só nessa altura se deu conta de que se tratava da filha mais velha da vizinha (como crescera, meu Deus!). Cumprimentou-a, elogiou-lhe com sinceridade a beleza e a graça que a juventude lhe trouxera, manifestou-lhe o seu espanto quando soube que já tinha 19 anos e por fim perguntou:

- E a sua mãe? Não está?
A resposta foi abrupta e seca:
- A minha mãe morreu.
O silêncio que se seguiu não deve ter durado mais que um segundo, mas foi eterno.
A rapariga, que respondera com uma certa agressividade, possivelmente supondo que estava na presença de uma daquelas clientes supostamente educadas mas de tal forma egocêntricas que até desse tipo de coisas se conseguem esquecer porque nem se deram ao trabalho de registar a informação quando a receberam, acrescentou mais calma e como para colmatar o choque:
- Já foi há três anos.
Três anos? Três anos! Três anos…
Como era possível? Três anos?
Balbuciou, articulando até com dificuldade:
- Desculpe, não sabia.
Não há palavras para descrever o misto de emoções e ideias que a atacavam literalmente de todas as formas, coisas tão diversas como o choque, a incredulidade, o sentimento de culpa pela forma como perguntara à filha pela mãe, a incrível rapidez com que o tempo passa, o sentimento de perca, a impossibilidade de estabelecer a tal amizade que tivera e perdera e agora lhe fora roubada assim, com uma simples frase, incontornável: - A minha mãe morreu!
- Como?
- Foi aqui, na loja, um dia à tarde, depois do almoço, eu estava cá, tinha começado a fazer aqui umas horas uns dias por semana. De repente queixou-se de uma grande dor nas costas, pediu uma cadeira, sentámo-la, fez xixi pelas pernas abaixo, voltou a queixar-se e a seguir tombou e morreu. Quando a ambulância chegou, já não havia nada a fazer, tinha morrido. Ela era hipertensa, sabe? E tinha muitos problemas com o meu pai, enervava-se muito e não tinha cuidado nenhum com a saúde.
- E o seu pai?
- Seguiu com a vida dele. Casou outra vez. Eu saí de casa logo depois, não aguentava aquilo, mas a minha irmã continua com eles, claro, e com o irmão mais novo. O meu pai tem outro filho deste casamento, já tem um ano, o meu irmão, mas eu afastei-me.
Não sabia o que havia de dizer. A frase da rapariga “ - A minha mãe morreu!”, continuava a ecoar-lhe na cabeça e, em conjunto com a verdade que encerrava, ocupava o espaço todo dentro de si.
- Que idade tinha?
- Quarenta anos. Faria agora 43 para o mês que vem.
Quarenta anos. O mês que vem. Quarenta anos. O mês que vem.
Despediu-se atabalhoadamente da rapariga, disse-lhe de forma algo circunstancial o quanto lamentava o sucedido, pediu-lhe desculpa uma vez mais porque não sabia mesmo quando lhe perguntara pela mãe e saiu da loja com a rapidez possível.

Não lhe perguntou o nome da mãe, não se lembrou de o fazer, nem o faria mesmo que se lembrasse pois considerava que nas circunstâncias a pergunta seria ofensiva.

Além do mais, o egoísmo abateu-se-lhe por cima de tudo: subjacente a todas aquelas emoções, uma ideia lhe martelava o cérebro desde que a rapariga lhe dissera a idade da mãe: é que também ela faria 40 anos no mês seguinte.

Mecanicamente, foi ao médico, mecanicamente regressou ao escritório. Abandonara por completo a ideia de tirar o resto da tarde para si. Não havia absolutamente nada que lhe apetecesse fazer depois daquilo. Viveu o resto do dia com num limbo, e os dias seguintes também.

Não se conformava. Não conseguia. O irremediável da situação era maior que ela. E além disso sentia medo: também fazia 40 anos no mês seguinte e era hipertensa.

Poucas semanas depois, sentiu uma súbita enorme dor nas costas…

***

Cláudia estava na loja quando a colega que folheava distraidamente o jornal lhe perguntou:

- Vê lá, não é aquela cliente que esteve cá no mês passado e perguntou pela tua mãe?
- É sim, é ela. Coitada. De que terá morrido? Não parecia nada doente no dia que cá veio, embora realmente tenha mencionado que ia ao médico. Se calhar estava mesmo.
- Pois é. As piores doenças às vezes nem sequer se notam à vista desarmada. - Disse a colega. Se calhar foi como o meu tio António, aquele que morreu de cancro, recordas-te? Até quase aos últimos dias tinha um aspecto óptimo e ninguém diria que estava em fase terminal.

Cláudia estava um pouco pensativa. Virou-se para a colega.
- Sabes? Tinhas razão, fiz mal em mentir-lhe sobre a minha mãe. Tenho que aceitar a situação. Não era feliz. Foi à procura do caminho dela e foi o melhor que fez. Um dia destes telefono-lhe para nos encontrarmos. Vou finalmente conhecer o meu irmão. O pai há-de acabar por também aceitar a minha decisão, lá porque para ele é como se tivesse morrido, não significa que para mim também tenha que ser assim. Coitada da senhora! Ficou tão perturbada na altura. Mas talvez depois tenha percebido que era mentira. Afinal de contas, onde é que já se viu alguém morrer de repente com uma dor nas costas?

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