Correio do Minho

Braga, sábado

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A Voz da Catedral

E no fim poderá ganhar (sempre) a Europa!

Ideias

2014-03-30 às 06h00

Felisbela Lopes Felisbela Lopes

Tive o privilegio de apresentar esta semana “A Voz da Catedral”, o primeiro de três volumes que reúnem os textos mais significativos do ministério de Dom Jorge Ortiga enquanto arcebispo Primaz de Braga. Trata-se de uma obra extensa, com o título que nos impõe, logo, uma pausa para perscrutar essa voz que ecoa num monumento especial, a catedral, a casa do bispo, o lugar que reúne uma história milenar, o espaço propício ao silêncio, à reflexão. Ora, é precisamente aí que nasce uma voz que importa ouvir. Uma voz que fala a partir de uma cátedra (o título também pode ser lido assim), mas que insiste em não ficar dentro do templo.

Ao longo deste primeiro volume encontramos uma voz que ora vai apontando disfuncionalidades ou injustiças, ora vai sublinhando solidariedades ou sucessos de uma sociedade que atravessa dias sombrios. É essa voz que avalia com sensatez cada momento que vamos escutando na Catedral e que agora acompanhamos transcrita em papel, dando-nos a oportunidade de a seguir devagar, encontrando, em cada página, o intervalo suficiente para seguirmos em frente ou fazermos derivas por outros percursos.

A primeira parte, composta por 61 textos, abre com um texto intitulado “Gratidão ao seminário”, escrito a 16 de Outubro de 1999, por altura dos 75 anos do Seminário Menor. O remate não poderia ser mais desafiador: “os 75 anos desta casa, marcando uma viragem de milénio, podem também assegurar um maior compromisso eclesial de quem por aqui passou”. Nesta primeira parte, sublinham-se, em outros tópicos, a celebração do Grande Jubileu do ano 2000; as conferências quaresmais e abre-se espaço para dar vida à Páscoa.

Nestes termos: “Nesta responsabilidade de dar vida à Páscoa, quero bater à porta do coração dos diocesanos que vivem momentos difíceis e segredar-lhes o voto, com as minhas orações, de uma Santa Páscoa. Páscoa de aleluia para os doentes, idosos, desempregados, divorciados, drogados, marginais, sem casa ou sem casa digna, pobres de toda a espécie. Que Cristo ressuscitado conceda a luz dum futuro melhor.”

É assim Dom Jorge, a voz que torna o centro um lugar nómada, a voz que desvia o centro para as periferias, iluminando-as de tal forma que desinquieta os mais acomodados, destrói preconceitos daqueles que insistem em desviar o olhar das margens como se delas não brotassem vidas que necessitam de abraços fraternos.

A segunda parte intitula-se “consolidar o século XXI” e atravessa os anos 2004 a 2008. Aí cruzam-se os caminhos da Igreja com os percursos de diversos campos sociais. É assim que deve ser. A voz que ressoa dentro da catedral deve furar as resistentes paredes de pedra e falar do real: do real anódino do cidadão comum ou do real das instituições.

A terceira parte transporta-nos de 2009 até bem perto de nós, 2013, sob o título “Superar a crise”. No entanto, as mais de cem páginas que compõem esta parte não ocultam a aspereza de uma austeridade que se enraizou nos lugares que habitamos. Ao drama do desemprego, esta Voz da Catedral junta outro alerta, o da pobreza escondida. Este primeiro volume fecha com o texto “Para Uma Nova Europa”.

Escreve-se isto: “Na verdade o mundo não se edificará sem a economia, mas também não se realizará só com a economia, necessita de algo diferente! Por isso, dai-lhe um rosto novo como os fundadores da Casa comum da Europa”. Num tempo que é de preparação de programas partidários que levarão até ao Parlamento Europeu 21 deputados portugueses, que bom seria se os políticos estivessem verdadeiramente empenhados nisto: na construção de uma nova Europa, com outra determinação e com uma renovada esperança.

A Voz que se faz ouvir a partir da Catedral inquieta muita gente: os poderes instituídos, interpelando-os a olhar para as margens para ver aí pedaços que estruturam as sociedade que governam; os sacerdotes, motivando-os a falar para aqueles que estão fora dos templos, tornando cada homilia momentos de palavras vivas que ressoam na vida de todos os dias; os leigos, estimulando-os a ser igreja nos lugares de muitas e matizadas gentes por onde passem.

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