Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Abrigos de autocarro

Sinais de pontuação

Ideias

2017-03-13 às 06h00

Filipe Fontes

Insiste-se que o sucesso do espaço público, enquanto elemento de referência da comunidade, o espaço comum (por excelência) de todos nós, é indissociável do (novo) sentido de pertença e identidade com esse mesmo espaço público. O que, forçosamente, traduz a necessidade do mesmo não ser encarado como meramente funcionalista mas sim sentido como um espaço emblemático e referenciador.

Muito por consequência deste reconhecimento, mesmo aqueles elementos existentes no espaço público (e que visavam assegurar tão só o cumprimento de um uso) ganharam múltiplas dimensões e significados, sendo hoje, incontornavelmente, mais do que uma resposta funcional. Também eles reservam uma componente icónica e simbólica, de composição e participação no desenho urbano que a sua banalização e necessidade (de tão “necessários”), tantas vezes, “naturaliza” a sua existência. Dir-se-á que são quase tão inatos à formação do espaço que existem… porque sim!
Um desses elementos urbanos são os denominados abrigos de autocarro.

Necessários por questões funcionais e de conforto, inerentes a uma resposta a uma demanda e serviço público, o abrigo de autocarro existe na resposta directa a um problema concreto - abrigar a população enquanto espera pelo autocarro. Conceito e percepção que, ao longo do tempo, verificou desenvolvimento mas sem alterar a sua matriz. (Talvez, por isso, apenas se tenha falado apenas em desenvolvimento. E nunca em evolução).

Hoje, é convicção de que se assiste a uma verdadeira evolução deste objecto urbano. Libertando-se da sua carga meramente funcionalista, o abrigo do autocarro, hoje, persegue:

• A sempre necessária resposta funcional a um problema e demanda mas já não de forma exclusiva ao requisito de abrigar. À necessidade de ter “um tecto” para proteger, hoje, o abrigo de autocarro já responde a requisitos de conforto (bancos, protecção lateral, …), de acessibilidade (assegurando uma universalidade de movimentos e acessos - porque também aqui, o espaço é de todos e para todos) e dimensão (na proporção da ocupação e procura média registada);
• A sua integração no espaço público, configurando-se como um elemento de composição e organização do espaço público, também ele definidor de espaços e alinhamentos, e afirmando-se como parte indissociável do espaço e sua transformação;
• O seu recurso como objecto icónico, onde facilmente é possível desenhar inventando, construir inovando, dir-se-á, num experimentalismo controlado que confere, muitas vezes, ao espaço público uma singularidade capaz de o elevar a ícone ou referência;
• A sua rentabilização como objecto e espaço público, associando-se a este objecto a divulgação e publicidade, a disseminação da promoção de eventos e acções de carácter colectivo, num exercício de extrapolação da versão funcionalista do abrigo para uma visão capitalista do seu objecto…

E, nesta assunção da plasticidade do abrigo de autocarro, relembra-se uma experiência recente vivida em Guimarães que, de forma singular, através da exposição “as paragens onde o tempo habita”, levou a dezassete abrigos de autocarro obras e ilustrações de diferentes artistas, numa acção que revelou todo o potencial do espaço público: capacidade de inovar, transformando um elemento funcionalista num veículo cultural, capacidade de concertar (congregando diferentes entidades), capacidade de promover (organizando visitas guiadas, explicitando e explicando), capacidade de relacionar e associar o espaço público à vida e quotidiano de todos nós, gerando uma oportunidade de os enriquecer e tornar, por muito pouco que seja, melhores!
Assim se conclui que o espaço público continua a ser o que sempre foi: espaço de partilha, espaço de resposta e espaço de surpresa. E espaço de expectativa. Que o amanhã seja melhor!

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