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Abstenção! O sinal amarelo?

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 Abstenção! O sinal amarelo?

Escreve quem sabe

2019-06-15 às 06h00

Vítor Esperança Vítor Esperança

Parece resultar das últimas eleições europeias que os grandes vencedores foram os que escolheram não votar e os que escolheram os partidos ditos verdes. Aos restantes todos apontam derrotas. Perderam os populismos e radicais, apontados como vencedores antecipados. Perderam os partidos do centro, os mais próximos da social-democracia, socialistas e liberais que perdem poder na liderança da Europa. Perderam os cidadãos abstencionistas por menosprezarem o direito de escolherem em liberdade.
Muitas razões têm sido dadas e explicações apontadas para ajudar a compreender os resultados. No meio delas, há duas que me chamaram especial atenção: a redução dos partidos às suas estruturas funcionais fechadas, perpetuando rostos, táticas políticas e lugares a ocupar como objetivos; e, a perda da sua identidade politica em consequência da ausência de propostas por causas, valores e objetivos que os distinguiam.

Na verdade, os partidos do chamado centro democrático, com peso eleitoral mais significativo e por isso responsáveis pela alternância da governação, situados no espetro político europeu entre o socialismo e os democratas-cristãos, passando pelos sociais-democratas e liberais, pouco ou nada disseram sobre as suas opções políticas, centrando os seus discursos no mal dizer, todos imputando erros uns aos outros, com pouco ou nenhum reconhecimento pelo bom trabalho que todos eles também deram contributo, resumindo os esclarecimentos e a informação política às más escolhas e piores práticas politicas.
Sobre os rostos, vemos quase sempre os mais conhecidos, achando os estrategas da política que a notoriedade mediática colhe mais votos. Pior, aqueles rostos não se representam, mantendo os líderes partidários a única credibilidade da palavra dada. De resto, que falta de legitimidade têm os deputados portugueses indicados pelos diferentes partidos e eleitos por 30% dos votantes? Nenhuma. Tanta representatividade têm os nomeados, como teriam quaisquer outros indicados pelos mesmos partidos, mesmo que escolhidos por 80% dos eleitores. Portugueses, serão sempre 21.

A grande e perigosa diferença é que com tão poucos a votar a representatividade em democracia passa para as minorias, ganhando quem perder por menos, favorecendo esta prática os mais radicais nas atitudes e nas ideias, mas melhores na mobilização.
A democracia de representação partidária apresenta-se hoje num estado doentio que deixa aos radicais a oportunidade para responder às causas atuais, aquelas que preocupam a maioria dos cidadãos, abordadas sem medos do “politicamente correto” e com a coragem de afrontar o poder letárgico e o “establishement” estabelecido, afastando os seus discursos do número de lugares a conquistar, apostando em causas mais específicas como as associadas ao ambiente, ao emprego mal remunerado, ao combate do crescimento do número de pobres e da corrupção, mobilizando cada vez mais cidadãos que se preocupam com o seu futuro e dos seus filhos, cansados dos discursos políticos suportados nas desgastadas bandeiras de partidos tradicionais da democracia estabelecida.

Se a tudo isto juntarmos os problemas das dívidas públicas, dos desvarios das engenharias financeiras centradas nos bancos, na confusão dos contratos feitos pela Estado em nome de todos, elaborados e só compreendidos pelos grandes escritórios de advogados, cujos resultados todos conhecemos e sentimos no aumento da carga fiscal, na descida efetiva de rendimentos, tenham elas origem no anterior governo, ou agora bem melhor disfarçadas nas cativações e adiamentos de promessas, chegaremos às feridas da Democracia.

Observo preocupado uma maioria crescente do eleitorado a analisar os políticos como elementos estranhos ao seu quotidiano, adjetivados do pior, envergonhando e fazendo afastar muita gente de qualidade que oferecem à Política, muito da sua vida, procurando melhorar a qualidade de vida de todos. Quem viu Portugal há 40 anos e o observa agora saberá reconhecer o valor e a utilidade da Política e da Democracia.
Continuo a acreditar que sararemos as feridas hoje bem visíveis. Que voltaremos ao livre debate de ideias. Que saberemos escolher as causas que fazem mudar vidas. Que geriremos e investiremos bem o esforço económico dos contribuintes.

Tenho receio de quem tudo sabe e sobre tudo tem resposta na hora, multiplicados como vírus nas redes sociais.
Aos jovens recomendo que procurem quem tenha sonhos, como os vossos e, a todos que não metam tudo e todos no mesmo saco do desprezo pela Política.
Lembrem-se sempre que se não o soubermos fazer, alguém o fará por nós. Nunca o Mundo ficou sem quem nele mandasse. A Democracia é porém a única opção política que dá a oportunidade de poderes escolher.?

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