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Acordo UE-UK. O fator Boris

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Acordo UE-UK. O fator Boris

Escreve quem sabe

2020-02-25 às 06h00

Carlos Vilas Boas Carlos Vilas Boas

Findo o mês sabático de fevereiro, em que ocorreu uma pausa após o frenesim da consumação do Brexit, segue-se a negociação do acordo que vinculará as relações comerciais futuras entre a União Europeia (UE) e o Reino Unido (RU), sendo que, pelo menos até 31 de dezembro de 2020, decorrerá um período de transição durante o qual prevalecerão as regras do Mercado Único Europeu e da União Aduaneira.
Desde que em finais de julho de 2019 se tornou líder do partido conservador britânico e primeiro ministro da Inglaterra, conquistando a maioria absoluta nas últimas eleições, o antigo Mayor de Londres Boris Johnson tornou-se na figura máxima do Brexit, assumindo ainda o controle sobre o futuro acordo com a UE, daí decorrendo a necessidade de conhecer o seu pensamento quanto à posição do RU na Europa e no Mundo, que vai seguramente influenciar a evolução das negociações.

No seu livro intitulado “O fator Churchill”, uma biografia do primeiro-ministro inglês que guiou os destinos do Reino durante a II Grande Guerra e mais tarde, Boris revela a sua profunda admiração por Winston, o maior estadista inglês do século passado, percebendo-se não só a sua identificação com ele, mas também a ambição de ser como ele, o Churchill do século XXI, tivesse ele e não tem, a nobreza, a oratória, o conhecimento e a capacidade do seu antecessor. Boris aborda o pensamento Churchilliano sobre o estatuto do RU no contexto europeu e o posicionamento perante o gigante do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos da América (EUA). Aqui abordarei apenas o segundo desses aspetos.
Segundo Boris, é Churchill quem ganha a guerra contra os nazis e fê-lo por ter conseguido “arrastar os Estados Unidos” para a cena, através da subtileza e lisonja que engendrou para convencer Washington. Não foi Pearl Harbour mas sim o charme de Churchill quem trouxe os americanos para o combate no solo europeu.

Desde a década de 1930 que reconhecia que os EUA se tornaram a maior potência económica do mundo, assentando que a recuperação mundial dependeria da expansão e crescimento americanos. Winston formula uma nova doutrina, de duas nações com um passado comum e uma idêntica tradição. Inicia uma incansável promoção dos povos “anglófonos”, propõe uma cidadania britânica e americana comum. Sugere que o dólar e a libra fossem fundidos numa nova divisa.
Pressente-se o júbilo de Boris ao estabelecer no seu mentor o propósito de uma profunda aliança anglo-americana. Depois do revisionismo do pensamento de Churchill quanto à criação de uma espécie de Estados Unidos da Europa, Boris aproveita na sua viragem americana, que já praticava no pré-Brexit, as posições de Winston dos tempos que antecederam a Grande Guerra de 1939-1945, esquecendo que elaboradas na década da Grande Depressão emanada do crash de 1929 e perante a gravíssima ameaça da ascensão de Hitler ao poder.

Boris revive, irrealisticamente, um RU como potência mundial em conjunto com os EUA, com quem, findo o espartilho da EU, pretende celebrar um “ambicioso acordo de livre comércio”. Não se esqueça que o elevado custo dos fornecimentos americanos no inicio da guerra levou Churchill a dizer em privado que a Grã-Bretanha estava a ser esfolada e roída até ao osso pelos americanos. Isto no tempo em que os EUA eram presididos por Roosevelt, imagine-se como será agora com Donald Trump.

Este reposicionamento não deixará de interferir com o curso das negociações. Respondendo ao negociador europeu para o Brexit, Michel Barnier e à afirmação de Bruxelas que para ter uma relação económica que inclua capitais, bens e serviços sem quotas nem taxas aduaneiras, o Reino Unido precisa de estar alinhado com as leis europeias ambientais, laborais, fiscais e sobre ajudas estatais, Boris veio dizer que o Reino Unido desenvolverá polí- ticas separadas e independentes em áreas como a imigração, política de concorrência e subsídios, meio ambiente e política social. O negociador principal do Reino Unido, David Frost, apelou a um acordo minimalista, na linha do que a UE mantém com o Canadá.
Um Brexit com acordo pode não estar seguro, mas o sonho americano pode tomar-se um pesadelo para Boris Johnson.

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