Correio do Minho

Braga, segunda-feira

Actuação no território e a forma como o construímos e alteramos

Escrever e falar bem Português

Ideias

2016-11-21 às 06h00

Filipe Fontes

Por vezes, histórias reais (que não realçam nomes) servem para homenagear e reflectir sobre a actuação no território e a forma como, tantas vezes, o construímos e alteramos. E, tantas vezes, desvalorizamos e, por vezes, deturpamos o mérito e esforço de tantos que contribuíram para tal…
Era uma vez um Homem bom, formado não importa em que área ou curso. Apenas, e tão só, habilitado a projectar. E, por complemento e fruto do contexto e “dos tempos”, a “arquitectar”.
Saído da lide universitária, fugazmente experimentado na função pública (que, tão rápida quanto, porventura, precipitadamente, abandonou), abraçou o exercício da profissão de forma liberal e descomprometida. Só ele e o mundo. Nem admitindo ajuda ou colaborador.

E, porque todo o homem precisa de pão para viver e alimento para a família, agarrou-se às possibilidades que lhe foram oferecidas, disponibilizadas e reclamadas por tantos que ambicionavam o sonho de “um lar ter e construir”.
E assim, foi “arquitectando” e projectando. E, depois, acrescentando avaliações e peritagens, gestão de obras e fiscalização. Com os clientes ia vivendo a intensidade de uma vontade (nem sempre traduzida numa correcta encomenda), a intermitência de uma encomenda sustentada na precaridade de honorários e inexistência de contratos e no conflito sempre latente com o poder público e saber arquitectónico “ditado” pelo mesmo poder público.

Do penúltimo contestava a parcialidade e falta de sentido. Do último, bradava a falta de credibilidade e, tantas vezes, ambiguidade. Dos dois, não escondia a suspeição do interesse.
Neste latente mau estar, que se foi perpetuando enquanto o volume de trabalho crescia, foi “arquitectando” como podia e sabia: em função do que via e do que pediam, em função da sua racionalidade e reflexão. Sempre consciente de que arquitectura “dos arquitectos” não se tratava, sempre seguro de que “o melhor que fazia” garantia ética e correcção. E, assim, legitimidade.

Como a tantos aconteceu, foi ganhando sustento e balanço. Para ousar outras experiências. E acrescentou mais uma actividade ao seu rol: construção.
“Arquitectando”, projectando e construindo, lidando com gente para a qual o sonho da concretização de “uma casa” era mais importante do que os “cânones e qualidade da boa arquitectura” (o verdadeiro cânone seria o “bom gosto “ de cada um…), convivendo com um poder público sempre na presença latente do confronto e do esforço da evidência (ora porque achava injusta a decisão, ora porque não tinha informação suficiente para a sua compreensão. E a informação não chegava…) e negociando com quem investia e rentabilizava, foi crescendo e moldando-se profissionalmente.

E, assim, também moldando e transformando a paisagem. De uma forma talvez imperceptível aos seus olhos, de forma visível para os académicos. Sempre de um modo ético, fazendo o que era permitido fazer. Fazendo o que melhor sabia e podia…
… Até o tempo absorver esta paisagem e a mesma, hoje, ser estudada, assim, como é. Não como anátema. Mas como parte consolidada. E integrada. Na vida de todos nós. Falta dizer que este Homem bom viu filho seu tornar-se arquitecto (daqueles inerentes à arquitectura “dos arquitectos”) e tomar caminho distinto do seu. Nunca compreendeu. Mas também nunca se opôs. Nunca se aproximou. Sempre apoiou.

E desta história de um Homem bom que, do melhor de si, deixou ficar no território, repetida tantas vezes quantos homens bons haja de fado similar, é feita a paisagem que hoje alcançamos.
Se o território é feito de paisagem e esta é tudo o que o homem constrói (bem como fruto da contingência da ocupação humana), então este homem bom é parte indissociável da mesma. E, no anonimato do seu esforço e rigor da sua ética, constará da história contínua e permanente do território de todos nós… (continua)

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